Outro dia, publiquei na minha timeline no Facebook uma charge mostrando uma mulher, chamada Liberdade, conduzindo, através de uma coleira, um pequeno dragão, chamado Segurança. Logo na sequência, o dragão aumentava progressivamente de tamanho, a ponto de praticamente engolir a Liberdade. E essa charge me impactou profundamente.

Fiquei pensando como, ao longo de toda a minha vida, eu me orientei em busca de Segurança. A Liberdade sempre me pareceu assustadora, subversiva, solitária.
Se queria ser alguém na vida, eu deveria buscar a Segurança e fazer dela uma prioridade em todas as minhas escolhas. Embora nossa sociedade tenda a glamourizar a Liberdade, em anúncios, filmes, conceitos, musicas, arte, etc, existe uma paranoia coletiva e silenciosa (nem tanto) que aponta o tempo inteiro para os perigos de ser livre. A Liberdade, em todas as áreas, implica em rompimentos e mudanças internas ou externas e mudanças normalmente são assustadoras.

Embora nossa vida pós moderna seja frenética e hiper conectada, isso pouco tem a ver com Liberdade. A impressão que tenho é que estamos todos numa imensa piscina de ondas de um imenso parque aquático. O que parece bem divertido e emocionante no início, dentro de pouco tempo traz cansaço e uma sensação de vazio. De repente, nos vemos lutando desesperadamente pra ficar acima das ondas e enxergar algo no horizonte. Não somos nós quem ditamos o ritmo das ondas, nem a intensidade delas. Sentimos uma necessidade quase visceral de ir no fluxo, sem ao menos nos perguntar por que. E quem ousa se fazer essa pergunta, se percebe nadando contra uma corrente poderosa.

Ser capitão do seu destino numa sociedade organizada dessa maneira é revolucionário. Vejo que hoje a verdadeira revolução é se dar conta de que se esteve por muito tempo nessa piscina de ondas e cair fora. Mas como fazer isso? Aos poucos, vejo pessoas chutando o balde e mudando a vida, valores, prioridades e perspectivas. Abrir mão do modo de vida antigo é doloroso, mas muita gente tem conseguido. E percebo a resignação nos olhos dos que querem, mas por n motivos, não podem ou (acham que) não conseguem. Também não podemos nos esquecer daquelas pessoas não privilegiadas que sequer podem escolher, pois estão mais preocupadas com a própria sobrevivência. Obviamente, não é delas que estamos falando aqui.

E o que tudo isso tem a ver com educação? Tudo. Você quer educar seu filho para a Segurança ou para a Liberdade? Pretende dizer a ele/ela pra escolher uma carreira que lhe dê dinheiro e/ou status, que pavimente um caminho seguro ou pretende incentivá-lo/a a seguir seu coração? Como vai reagir se seu filho optar por uma profissão que não oferece altos salários ou estabilidade no emprego? Será melhor incentivá-los a prestar um concurso, talvez? Tudo em nome da Segurança? Ou não? Você teria coragem, orgulho e tranquilidade ao ver seu filho sobrevivendo no mundo sendo surfista de ondas gigantes? Mágico? Artista de circo? Professor? Triatleta? Jogador anônimo de futebol? Aspirante a cantor ou ator? Cuidador de crianças ou idosos? Qualquer coisa que fuja dos tradicionais e respeitados diplomas de médicos, advogados, engenheiros, empresários, marqueteiros ou empreendedores de sucesso?

Eu me faço essas perguntas praticamente todos os dias, especialmente agora. Talvez, nesse momento, você esteja se sacrificando na Segurança, na ilusão de dar Liberdade para seus filhos lá na frente ou até para você mesmo, numa aposentadoria idealizada. Mas será que a escola onde eles estudam está ensinando Liberdade ou está justamente exaltando os valores invertidos dos nossos tempos, apontando miragens como status, dinheiro, poder? Será que você mesmo não está se iludindo, acreditando que um dia poderá usufruir verdadeiramente do que acumulou com tanto esforço?

Nenhuma dessas perguntas fazem sentido se você está feliz e satisfeito vivendo nessa piscina de ondas ou se acredita que é preciso ganhar dinheiro e buscar segurança acima de tudo, pois sem dinheiro e segurança nada se constrói. Se é assim pra você, que bom, menos um desajustado no mundo.  Não estou de jeito nenhum demonizando o dinheiro. Ele é muito importante para atender nossas necessidades básicas e nos dar um mínimo de conforto. Mas, como diz a charge do dragão na coleira, é preciso ver honestamente qual o papel que o dinheiro, a segurança e o status representam em nossas vidas. Talvez já tenhamos submergido e não saibamos disso. Ou talvez sejamos ejetados da piscina de uma hora pra outra e tenhamos a chance de recomeçar em novas bases.

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