Tentando fugir do modelo escolar estilo “linha de montagem“, me deparei com a necessidade de construir um mapa da educação alternativa. Espero conseguir visualizar um resumo bem abrangente das linhas de pensamento que norteiam essa “nova escola” que estou procurando.

Percebo que, na medida que vou avançando na pesquisa, conversando com pessoas aqui e acolá, percebendo movimentos, divergências e sincronias com o que penso e sinto, percebo que existe esse mapa, mas não existe algo pronto, definido, no qual eu possa me agarrar para seguir em frente. O mapa é totalmente amoldável à perspectiva do pesquisador.

Existem sim, linhas diversas de pensamento que convergem para a ideia de que é preciso, urgentemente, acabar com essa “produção rápida e controlada de (seres humanos como se fossem) objetos iguais“. E aí encontrei o maravilhoso livro do Rubem Alves, “A Escola que sempre sonhei sem nunca imaginar que pudesse existir“. Graças à leitura desse livro, percebo que, para além de uma pedagogia estruturada e definida, existe muita gente boa construindo um novo paradigma de educação, que não cabe nos limites de uma pedagogia já “testada e aprovada”. Existem pessoas que resolveram colocar o aluno como protagonista de tudo o que ocorre no ambiente de aprendizagem, que resolveram elevar o aluno a uma nova definição: um ser humano pensante e plenamente capaz de tomar decisões e escolher seus rumos.

Esse pensamento é, em si, revolucionário, porque temos no nosso imaginário a ideia de que uma criança é um quadro em branco, uma esponja, um ser ainda em formação que precisa ser instruído, ensinado, moldado, formatado. A noção de que “é de menino que se torce o pepino” está tremendamente arraigada no nosso modo de pensar e agir na educação. Vemos uma boa escola como aquela que força o aluno a se enquadrar num determinado modelo e aí ficamos meio perdidos quando novas escolas e novas comunidades derrubam todos os modelos existentes e criam seus próprios moldes. Até mesmo o nome “Escola”, sob essa nova ótica, pode e deve ser revisado.

No livro, Rubem Alves fala da Escola da Ponte, uma “Comunidade de Aprendizado” criada pelo educador José Pacheco, em Portugal, que possui várias “filiais” espalhadas pelo mundo, inclusive no Brasil. Na Escola da Ponte, não existe um currículo definido. Os próprios alunos decidem o que vão aprender, em grupos. Se debruçam sobre a Internet e fontes de informação diversas, inclusive pesquisas in loco, e formulam suas próprias conclusões a respeito do que viram, ouviram, sentiram e aprenderam. Toda a organização escolar funciona na base de assembleias democráticas, onde se discutem e se formulam todas as regras e condutas dos alunos, feitas por eles mesmos. Não existe a figura do professor como aquele único que detém o saber e sim como guia, condutor e facilitador do processo de aprendizagem. O professor é rebatizado como “Orientador Educativo“. E os alunos mais velhos também trabalham como facilitadores e orientadores do aprendizado dos mais novos. Dizem que a melhor forma de aprender é ensinando, daí essa prática fazer todo o sentido. Em vez de divisão por anos de escolaridade ou ciclos, os alunos dividem-se em três estágios do conhecimento: Iniciação, Consolidação e Aprofundamento. Cada faixa etária vai ser direcionada para seu estágio específico e o conhecimento adquirido vai ser reciclado a medida que a idade avança e a compreensão do mundo se aprofunda.

Ao contrário do que possa parecer, na Escola da Ponte, segundo conta Rubem Alves, existe sim muita ordem, muita paz e harmonia. Tendemos a acreditar que, onde reina a liberdade, reina também o caos. Mas ao contrário, na experiência desse microcosmo lá em Portugal e em outras partes do mundo, vemos que sim, é possível criar um ambiente de crianças autônomas, conscientes e responsáveis, no qual o conhecimento esteja plenamente acessível, mas seja acessado sempre a partir da vontade da criança, de sua curiosidade inata, de sua percepção do mundo em diferentes estágios e não algo empurrado goela abaixo, “porque é assim que tem que ser”. Um trecho do livro que me tocou bastante:

“Gente de boa memória jamais entenderá aquela escola. Para entender é preciso esquecer quase tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer é livrar-se dos jeitos de ser que se sedimentaram em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm de ser do jeito como são. Não. Não é preciso que as coisas continuem a ser do jeito como sempre foram”.

Em entrevista recente para um portal brasileiro, José Pacheco afirma, com muita lucidez e de forma talvez bastante incisiva, mas verdadeira: o modelo atual está falido. “Aula não ensina, prova não avalia… Não vejo outra razão para as coisas continuarem como estão, senão pela incompetência ou corrupção”. Veja essa excelente entrevista na íntegra aqui.

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