Educação é um tema muito abrangente, que transcende as fronteiras da escola e passa principalmente pelo ambiente familiar. O senso comum diz que educação está automaticamente ligada à punição e castigo, como forma de disciplinar a criança a seguir determinado padrão de conduta.

Normalmente, esse padrão de conduta desconsidera totalmente as peculiaridades do mundo infantil e tenta moldar e enquadrar o comportamento da criança, de forma que fique cada vez mais parecido com o comportamento de um adulto. Aprendi recentemente que isso se chama adultismo. Graças à essa visão de mundo “adultocêntrica” ainda vivemos uma naturalização da violência contra a criança, que precisa ser combatida com muito esclarecimento e sensibilidade. É um trabalho que começa com cada um de nós, a partir da nossa história familiar, reconhecendo que precisamos adotar novas atitudes com nossos filhos.

Como criar filhos que sejam verdadeiramente livres e autônomos, sem rótulos, se nós mesmos não fomos criados assim? Como alcançar o equilíbrio e estabelecer limites com amor, sem aplicar os velhos esquemas punitivos ainda tão naturalizados, que tanto conhecemos? Parece que alguma coisa se perdeu na educação dos nossos filhos e a gente fica procurando fórmulas, cursos, livros, orientações, fica obcecado no “como fazer”, na “parte prática”, porque queremos acertar, mas a maioria de nós não tem modelos familiares positivos para se inspirar.

Nessa busca pelo “caminho certo” eu percebo que existem pelo menos duas vertentes:

A primeira, a mais comum, prega um esquema rígido de procedimentos a serem seguidos à risca, insinuando que os pais pouco ou nada sabem sobre criação de filhos hoje em dia, mas os “especialistas” têm a generosidade de compartilhar esse tesouro de sabedoria com a gente. Nessa linha, temos figuras como a super nanny, a encantadora de bebês, o pediatra veterano cuja palavra é lei, a babá cinco estrelas que é contratada nos primeiros meses pra botar a criança nos eixos (ou seja, dormir a noite inteira no próprio bercinho, desde o primeiro dia em casa e não incomodar os pais). É a turma dos adestradores de crianças.

A segunda vertente prega a volta às origens: siga sua intuição, mas preste muita atenção no que sua mãe, sua sogra, a tradição familiar ou alguém mais experiente palpitar, pois “essa gente das antigas sabe das coisas”. O problema é que nem sempre o que sua mãe e sua avó faziam era bom, era saudável, era sensato. Muito abuso, muita conduta desatualizada e prejudicial, muito trauma e muito abandono podem ser reproduzidos no piloto automático, sem a gente se dar conta, só porque “era assim que mamãe fazia”.

E uma terceira vertente, na qual eu acredito, vem martelando, batendo insistentemente na tecla de que os pais estão se esquecendo de algo fundamental: o vínculo, a disponibilidade emocional. De nada adianta a gente conhecer e praticar a pedagogia, a disciplina, a técnica ou teoria educacional mais espetacular do universo ou prover a criança de todo o conforto e recursos materiais ou fazer o que mamãe fazia se a nossa alma não estiver ali no momento, se nosso coração e nossos ouvidos não estiverem atentos, amorosos, ancorados no momento presente.

O tão falado “tempo de qualidade” com os filhos acaba sendo drenado pelo celular, tablet ou TV, pelas preocupações rotineiras, pelas angústias da vida moderna, pelos desafios profissionais, pelas dificuldades pessoais, pelas nossas necessidades que parecem urgentes em detrimento das necessidades dos nossos filhos… Quando nos damos conta, podemos estar ali de corpo presente, mas a alma voando longe. Nesse cenário, as demandas da criança parecem pesadas demais para administrar e nos sentimos sugados, exaustos, impotentes, desesperados… E aí surge a raiva… Então, num acesso de descontrole emocional, nós gritamos, batemos, espancamos, ignoramos, castigamos… ou nada fazemos, na esperança de que o comportamento “inadequado” desapareça, como passe de mágica. Ou acreditamos que todo o problema está na criança e a levamos para o terapeuta, na esperança de “consertá-la”..

Semana passada, estive em uma palestra organizada por amigas queridas e ministrada pela Gabriela Michel, psicóloga clínica familiar baseada na Antroposofia. Obviamente que, como leiga, apreendi muito pouco da extensa teoria apresentada por ela, mas o encontro aumentou ainda mais meu fascínio pela Antroposofia e pela Pedagogia Waldorf (pretendo me aprofundar no assunto em breve!).

O tema central da palestra era “Os doze sentidos da criança“. Estamos acostumados a pensar somente nos cinco sentidos: tato, audição, visão, olfato, paladar. Mas, segundo a Antroposofia, nós desenvolvemos ao longo da vida outros sentidos igualmente importantes, que determinam nossa percepção do mundo, nossas atitudes e comportamentos: O Sentido da Vida (percepções físicas do nosso corpo), O Sentido do Movimento (que nos transmite a sensação de liberdade), O Sentido do Equilíbrio (que nos traz paz interna), O Sentido Térmico (que nos permite equilibrar o calor interno e externo), O Sentido da Palavra (percepção do pensamento por trás da palavra), O Sentido do Pensar (que nos permite formar conceitos sobre o nosso mundo) e o Sentido do Eu (que nos permite nos enxergar como seres humanos). Segundo a Gabriela, existiria ainda um 13 Sentido, que é o sentido do Amor, do “Cristo em Nós”, da humanidade, da capacidade de acolher o outro com o coração. Esse Sentido só estaria plenamente desenvolvido, segundo ela, por volta dos 42 anos.

Gabriela explica que o sentido primordial na vida de todos nós é o Tato. Esse sentido é o responsável pela nossa primeira percepção do mundo, pelo senso de limites do nosso corpo e pelo primeiro vínculo com outro ser humano. Os primeiros instantes na vida de um bebê deveriam ser de total fusão com a mãe, nos braços dela, para que esse vínculo se estabeleça de forma sólida. É exatamente o que prega também a teoria do Imprinting. Trata-se de um momento único, uma janela de oportunidade, que vai marcar a qualidade da ligação mãe e filho e influenciar todos os outros Sentidos. A maneira como somos concebidos, como nascemos e como percebemos o mundo está intimamente ligada ao tipo de vínculo que desenvolvemos com nossas mães.

A Gabriela explicou que um sentido do Tato pouco desenvolvido pode diminuir drasticamente nossa capacidade de ouvir o outro, de criar empatia, de amar e aceitar o outro, de fazer con-tato. Pode também ser a semente das adicções e vícios, pois perdemos nosso senso de limites internos e externos. Uma quebra no vínculo com a mãe pode causar dificuldades em todos os vínculos posteriores e minar nossa capacidade de oferecer atenção plena aos nossos filhos. Numa sociedade violenta, narcisista, egoísta e individualista como a nossa, não é difícil entender onde está a raiz dos nossos piores problemas.

Dar atenção plena aos filhos é uma tarefa bem mais difícil do que parece. E eu acredito fortemente que quem fala que é fácil, ou está mentindo descaradamente ou está bem mais alienado do que imagina. Nossos pais e mães não têm culpa por não nos terem dado, porque eles também não receberam. Por isso, a maioria de nós precisa passar nossa infância a limpo, separar o que é problema nosso, falta nossa, abuso nosso, carência nossa dos problemas dos nossos filhos, sob pena de passarmos essa pesada fatura pra eles. O abandono, se não for identificado e tratado, é hereditário. Mas sempre é tempo de se buscar a cura.

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