Acredito que toda mãe (e todo pai também) em algum momento na jornada de criação dos filhos se depara com essa entidade poderosa: a culpa. Há quem a enfrente todos os dias, várias vezes por dia (me incluo nesse grupo). Ando lendo muito por aí que é possível educar nossos filhos sem sentir nenhuma culpa e que isso seria ótimo, tanto para nós, pais, quanto para nossos filhos. Mas será mesmo?

Hoje parece haver um manual de conduta da boa mãe e quem não cumpre a risca os itens contidos nesse manual vai queimar no fogo do inferno das “menos mães“. Esse manual de conduta, baseado nas mais modernas pesquisas evidências científicas, prega que o melhor parto é o normal, a amamentação tem que ser exclusiva até seis meses e se prolongar até 2 anos ou mais, a criança nunca, jamais, deve colocar uma chupeta ou uma mamadeira na boca, jamais comer porcarias, os pais jamais devem levantar a voz, bater ou castigar, devemos estar plenamente à disposição dos filhos, sempre prontas a doar livremente nosso tempo e nossa atenção…

Eu sinceramente concordo com todos os pontos acima. Eu gostaria muito de cumprir linha por linha desse manual de “boa mãe”. Mas, sinceramente, cá entre nós, quem consegue? Penso que todos esses pontos devem ser perseguidos sim, como um ideal, pra que a gente vá fazendo ajustes aqui e ali, para sermos mães melhores, cada vez mais conscientes. Porque sabemos que perfeitas, jamais seremos. Sempre haverá um item do manual dolorosamente pendente.

Muita gente faz uma distinção entre “culpa” e “responsabilidade”. Dizem que a culpa imobiliza e a responsabilidade permite uma reparação. Também penso dessa forma, mas mantenho a palavra “culpa” no texto, pois é o que vem à mente da maioria de nós, quando sabemos que cometemos um erro. Cabe a nós transformar a culpa em responsabilidade, tentando mudar aquilo que é possível em nossas condutas.

Eu me recuso a aceitar que nós mães, que amamos verdadeiramente nossos filhos, estamos a passeio nessa empreitada. Me recuso a acreditar que nós erramos com nossos filhos de propósito, intencionalmente. Todos nós, ou pelo menos 99,9% de nós, queremos acertar. Então eu acho que a culpa, ou melhor dizendo, a consciência de que talvez o que estejamos fazendo no momento não seja o melhor, nem o mais saudável para nossos filhos, pode ser uma boa auxiliar no processo de mudança de atitude.

E quando percebemos o erro, mas ainda assim, não conseguimos mudar? E quando parece (principalmente aos olhos dos outros) que não estamos sendo boas mães, porque não estamos conseguindo fazer aquilo que pra mãe ao lado parece tão fácil, tão prazeroso, tão instintivo? Acredito que nessa hora precisamos ter muita calma conosco. Geralmente, por trás dessa dificuldade, está uma história de abandono, uma infância infeliz (a nossa), uma inabilidade emocional, uma ferida do passado que precisa ser cicatrizada ou um outro problema se insinuando na nossa maternidade. Nossas dificuldades na maternidade/paternidade mostram coisas sobre nós que normalmente não queremos encarar, pois são dolorosas demais. Ou às vezes, as lembranças foram tão ruins que simplesmente foram apagadas da nossa memória, mas algo está ali dentro e incomoda. Ou às vezes, circunstâncias maiores que nós se impuseram. Com ou sem nenhuma razão especial, apenas não demos conta.

Há alguns dias, senti muita tristeza e decepção comigo mesma quando perdi a paciência e gritei com minha filha. Essa tristeza, que pode também ser nomeada de culpa, foi positiva pra mim, pois meu ideal é nunca gritar. Então, ao sentir tristeza por ter feito algo que no íntimo eu condeno, pude tomar consciência do meu erro e construir para mim mesma a oportunidade de fazer diferente da próxima vez. Percebi que estava cansada, esgotada, me sentindo sugada… e vi que a maior parte desses sentimentos e sensações nada tinha a ver com o comportamento da minha filha e sim com outras questões que estavam me assombrando. Se meus valores fossem diferentes, ou seja, se gritar fosse pra mim uma forma eficaz de disciplinar minha filha, provavelmente eu não sentiria nenhuma culpa. E obviamente continuaria gritando sempre que perdesse a paciência… Mas isso seria bom pra mim e principalmente pra ela? Creio sinceramente que não!

A ausência total de culpa, pra mim, não é um bom caminho, mas a ideia de que uma mãe que erra “sem nenhuma culpa” está errando de propósito, também é igualmente prejudicial. Mulheres que poderiam estar unidas em busca de melhorar a si mesmas, se acolhendo em suas dificuldades, estão travando verdadeiras guerras nas redes sociais e também na vida real. Vejo várias mães julgando a maternagem alheia, mas se esquecendo de seus telhados de vidro. E é muito difícil reconhecer que podemos estar com uma pedra nas mãos. Por exemplo, se nunca tivemos dificuldade com a amamentação, podemos respirar aliviadas e afrouxar nossa culpa quando vemos uma outra mãe que “desistiu” e optou pela mamadeira. Pelo menos no quesito amamentação, somos boas mães, conseguimos seguir o manual, ufa. Como para nós não houve nenhuma dificuldade em dar o seio, pode parecer que a mulher que optou pela mamadeira foi “preguiçosa, fútil, egoísta, alienada”. E por aí vai… Esse tipo de julgamento é bem mais comum e bem menos confessado do que imaginamos. E desconsidera totalmente a história pessoal e as dificuldades maternas alheias.

Fala-se muito em crianças “estragadas” devido à culpa dos pais por não estarem tão presentes na vida dos filhos. Como normalmente a maioria de nós passa pouco tempo com as crianças, estas quando estão conosco, não ouvem todos os “nãos” nem recebem os limites que deveriam receber. Talvez o sentimento de culpa não seja de todo prejudicial, mas sim as nossas atitudes tomadas a partir desse sentimento. Às vezes a culpa pode ser tão dolorosa que procuramos a saída mais rápida e mais fácil para nos livrar dela, mas pagamos um preço por isso lá na frente. Precisamos traduzir corretamente as necessidades dos nossos filhos, pois nem sempre estas são expressas numa forma adequada. Um pedido insistente por um brinquedo novo ou por uma guloseima pode significar, na verdade, um “mamãe, fique mais tempo comigo, olhe mais para mim“. E atender essa necessidade visceral da criança pode significar um esforço e uma mudança de mentalidade ou até de estrutura e papéis familiares que muitas de nós ainda não estamos preparadas para encarar.

Numa sociedade patriarcal, heteronormativa e machista como a nossa, na qual a mulher ainda sofre para equilibrar uma dupla ou tripla jornada de trabalho, muitas vezes o papel do pai se resume a prover a casa e é necessária uma nova distribuição de tarefas, para que o esgotamento e cansaço maternos não sejam tão frequentes e seja possível a tal mudança de atitude que tanto almejamos. Se uma mãe está sempre cansada e esgotada, dificilmente poderá estar mais presente emocionalmente e fisicamente na vida dos filhos. Mas isso é assunto extenso, a ser desenvolvido em outro post

E o que fazer a respeito dos erros já cometidos? Aqueles que por mais que tentemos, não conseguiremos reparar, nem hoje, nem no futuro? O mais importante talvez seja usar essas experiências como aprendizado, como trampolim para nossa transformação. Tentar abrir nosso coração e enxergar nossas sombras, nossos pontos falhos, onde ainda precisamos colocar atenção, luz, cuidado, coragem é uma jornada sem data pra acabar. Com paciência e amor por nós mesmos, iniciar essa jornada é sempre possível – e libertador.

Anúncios