No post anterior, falamos sobre o Logan, que saiu da escola aos 9 anos e criou sua própria forma de aprender. Chamamos de Desescolarização (Unschooling) a prática de romper com o conceito de escola, fortemente inoculado em nossas mentes, desde que a escola, como a conhecemos hoje, passou a ser considerada o único local onde a educação poderia ser possível.

Na Desescolarização, existe um único compromisso, que norteia todo o processo educacional: valorizar o impulso natural da criança para descobrir e aprender por si mesma. Cada criança e cada família são responsáveis pelo conteúdo que será apresentado. A criança aprende somente o que sua curiosidade determina. Não existe um currículo predefinido a ser ministrado. Não existe tempo determinado para que a criança aprenda esse conteúdo. Não existe necessidade ou obrigatoriedade de que, com determinada idade, a criança saiba determinada coisa.

Essa desprogramação à primeira vista parece assustadora e anárquica. Como criar um filho fora da escola? O que será do futuro desse filho?

Sob a ótica do paradigma atual, acreditar e confiar que uma criança possa ter autonomia para guiar seu próprio processo de aprendizagem, sem ter um adulto iluminando o caminho à frente é revolucionário e causa muita estranheza a princípio. Na Desescolarização, o papel do adulto é ser um facilitador ou um co-autor do processo de aprendizagem, que também aprende junto com a criança.

Importante frisar que aqui não falamos de Homeschooling, que significa escolarizar os filhos em casa. No Homeschooling, os próprios pais se encarregam de trazer a escola para o ambiente familiar e eles mesmos transferem o conteúdo educacional e didático escolarizado aos filhos. O ensino domiciliar é aplicado em mais de 60 países no mundo todo, mas ainda é proibido no Brasil.

Meu primeiro contato com a Desescolarização veio através das palestras da Ana Thomaz. Ana iniciou sua jornada ao lado do filho mais velho, que não queria mais ir à escola. Nessa recusa do filho, que também encontrava eco em seu coração, ela percebeu um novo caminho a ser percorrido e mergulhou de cabeça. Hoje ela ajuda famílias que desejam ingressar nesse universo, levantando questões instigantes, em vez de oferecer respostas prontas e manuais: “Ser ativista da desescolarização sem pratica-la é um dos indícios de que esse tema já está absorvido pelo velho paradigma“, afirma ela em seu blog.

Mais um exemplo brasileiro na jornada de Desescolarização é do Biel Baum, que hoje vive no México e está cursando faculdade de gastronomia, com apenas 13 anos. O sonho dele é levar os conceitos de alimentação saudável para crianças no mundo todo. Biel é um dos co-criadores da Escola com Asas, cuja missão é “apoiar crianças, jovens, adultos e famílias na realização dos seus sonhos através do empreendedorismo social, estimulando sua capacidade de transformação e inovação, de forma colaborativa e livre“. Num video emocionante (no início do post) ele conta um pouco de sua história e seus valores.

Há algumas semanas, entrevistei a filósofa Carla Ferro, uma entusiasta da Desescolarização, que está escrevendo um livro sobre o assunto, com previsão de lançamento para 2016. Ela se dedica ao tema desde que começou a procurar um parto respeitoso para trazer a filha Gaia ao mundo. “Eu tinha a impressão de que eu podia escolher entre um parto normal e uma cirurgia cesariana, mas estava enganada. Fui pesquisar, procurar parteiras tradicionais e comecei a me interessar pela aprendizagem sem ensino, por aquele conhecimento. Queria entender como as pessoas aprendem quando elas não são ensinadas“.

Carla não gosta de rotular a Desescolarização como um “movimento”, pois para ela, este é um processo absolutamente único e individual. Existe hoje uma estimativa de que 3 mil famílias brasileiras estejam vivendo a Desescolarização. “Mas essa é uma estimativa baseada somente na minha experiência“, diz ela. “Pode ser que muito mais gente no interior do Brasil esteja imersa nesse processo e não apareça, devido ao fato de não existir legislação apoiando“, completa.

“O lugar de criança é na rua, no mundo. Se há um problema na criança ocupar a rua, é a rua que está mal. A criança humaniza os espaços públicos”.

Carla Ferro

Sobre as implicações legais de bancar uma vida desescolarizada, Carla elucida: “A única lei que tem valor constitucional no Brasil e que menciona a obrigatoriedade do ensino é um tratado internacional, no qual o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) se baseia pra tornar o ensino obrigatório. Muitas famílias desescolarizadas no Brasil estão sendo processadas, mas nenhum processo teve até agora consequências mais graves do que a aplicação de uma multa. As pessoas que estão desescolarizando os filhos não estão submetendo seus filhos a situações de vulnerabilidade ou risco. Todos sabemos de crianças em situação extremamente arriscada e vulnerável que estão dentro das escolas. Não dá pra um juiz chegar até as últimas consequências, como suspender o poder familiar de crianças que comprovadamente estão crescendo super saudáveis, felizes e aprendendo sempre. A lei permite que se ameace com processos, liminares, etc, mas na prática essa punição ainda não existe. O lugar de criança é na rua, no mundo. Se há um problema na criança ocupar a rua, é a rua que está mal. A criança humaniza os espaços públicos“.

A entrevista rendeu um bate-papo extenso, muito interessante, que me fez repensar e sentir a educação de um ângulo completamente diferente. Seguem alguns trechos que me marcaram muito:

A Desescolarização é a aprendizagem livre, que se identifica com a própria vida. Resolvi escrever esse livro porque, conversando com tanta gente, vejo que existem questões comuns em todo o mundo, sobre o tema. Percebi que as nossas perguntas não refletem tanto as nossas dúvidas, mas sim as nossas certezas. Quando, por exemplo, eu conto sobre o que ando fazendo, as perguntas das pessoas começam sempre com um “mas”. Por exemplo, as pessoas perguntam: “Mas ela não vai aprender nada?”, que reflete o pensamento de que não se aprende nada fora da escola. Outra pergunta que aparece muito é sobre a socialização, como se somente no ambiente escolar a criança pudesse se socializar“.

“Num determinado momento, eu não conseguia mais corresponder às expectativas dos meus empregadores. Comecei a me sentir diferente e a ficar extremamente ofendida ao ter que cumprir um horário de trabalho sem que eu tivesse mais nada pra fazer. Comecei a não ver nenhum sentido em me colocar à disposição de ordens que viriam e eu não sabia de onde nem quando e quais eram essas ordens. Não conseguia mais fazer coisas que eu achava que não precisavam ser feitas e que alimentavam um sistema sem sentido. Ao mesmo tempo que esses sentidos se esvaziaram, outros foram se abrindo para mim. Fui adquirindo outras competências, fazendo coisas que eu jamais imaginei que pudesse fazer. Isso tudo faz parte de um fluxo no qual você mergulha e as dúvidas vão se dissipando”.

“As pessoas me perguntam se a desescolarização é para todos. Eu fico chocada, porque essa pergunta reflete o velho paradigma. Não se trata de um programa de governo, ou de um direito, mas de uma liberdade que as pessoas podem exercer. Não existe um manual de Desescolarização. As pessoas criam suas próprias condições, principalmente porque não conseguem mais fazer as coisas do jeito antigo. Você passa a consumir diferente, se relacionar diferente, a pensar diferente. Isso re-significa toda a sua vida”.

“Vivo num mundo em que as relações institucionalizadas ou escolarizadas não passam por mim. As pessoas não pedem mais meu diploma ou meu currículo para trabalhar comigo. O mundo age dessa forma, você é sua profissão, sua experiência, seu projeto. Eu me sinto confortável em ser somente a Carla“.

“Algumas escolas já não têm aula, mas têm um processo de despertar o interesse dos alunos em aprender o que eles “devem” aprender. Isso parece diferente, mas é o mesmo paradigma, as escolas impõem o ensino de outra maneira. É até mais desonesto que o sistema tradicional, porque as relações de poder ainda existem, mas não são claras. Todo mundo está preocupado agora com autonomia, pois o mercado de trabalho quer pessoas autônomas, mas eu vejo que as escolas ainda pensam autonomia como fazer a criança querer o que a gente quer, pois a gente sabe o que é melhor“. 

“A gente tem uma tendência de querer controlar o que vai acontecer, porque a gente tem muito medo, medo do filho não ter um emprego, de não ter um plano de saúde, de ser mal visto, etc. e aí a expectativa é o outro lado da moeda do sistema, ou seja, você vai estudar para ter o melhor trabalho, pra poder exercer esse controle. É a historia da cenoura e do chicote. Essa expectativa de controle coloca a gente nesse buraco social, essa é a pauta das nossas ações e relações”.

“A desescolarização não é um novo modelo, ela é um não modelo, é sair pela porta da frente, romper com o paradigma. As pedagogias alternativas são para mim processos de regeneração do velho paradigma. Por exemplo, as crianças não têm aula na sala de aula, mas no jardim. Não é mais uma carteira em cima da outra, você senta em roda. E isso se reflete fora da escola: não vou ser mais funcionário, vou empreender. Esse discurso faz você se sentir mais confortável, mas é a reprodução do velho sistema, com algumas melhorias. O modo de vida adquire roupagem nova, mas não muda. Essa não é a ruptura que se busca com a desescolarização”.

“É uma questão de saber no corpo quanto você está bem. O corpo diz se é aqui que eu devo ficar ou não. A ruptura não é planejada, ela simplesmente acontece, a partir do momento em que você começa a sentir no corpo o incômodo com as velhas estruturas. Quando criança, a gente sente dor de barriga, mas aí a gente cresce e normalmente a gente se acostuma com o incômodo, ou toma um remedinho pra ansiedade, mas essas medidas impossibilitam nossa capacidade de romper com o que não faz mais sentido pra gente”.

“Tem uma coisa contagiante rolando por aí agora que é a tal da confiança, mas não aquela confiança que vem do controle e da expectativa, que acredita que vai acontecer o que eu quero. Não é confiança no futuro, mas na vitalidade das nossas relações. Quando a gente age a partir dessa confiança, é totalmente diferente. Você vê o outro de outro jeito. Você não quer conduzi-lo, você simplesmente confia”.

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