No filme “Perdido em Marte“, Matt Damon é um astronauta da Nasa que foi deixado para trás pelos companheiros de missão e consegue sobreviver no planeta vermelho, sob as condiçōes mais adversas. Apesar de ser o protagonista e aparecer na tela em 90% do filme, a sobrevivência dele só é possível graças aos melhores esforços de um time gigantesco de pessoas, com os mais diferentes talentos, personalidades, gostos, habilidades, forças e fraquezas.

Na mitologia greco-romana, Marte é o deus da guerra, dominador e agressivo, que marca o gol e ganha os créditos das batalhas. Na superfície marciana, as migalhas de humanidade que sustentam o protagonista do filme vêm de uma energia diferente, coletiva, colaborativa, que luta o tempo todo para se sobrepor à aridez do “deixa que eu resolvo”.

Saí do cinema com a sensação de ter visto um bom filme, mas nada novo. Já vi muitas histórias assim, sobre superação de limites através de trabalho em equipe. Imaginei que esse seria mais um daqueles filmes motivacionais utilizados pelo “mercado corporativo”, essa entidade constituinte do que hoje passei a chamar de “sistema”.

O cinema americano tem a capacidade de produzir sucessos populares de excelente qualidade, mas que ainda servem ao propósito de sustentar esse “sistema”, ancorado na meritocracia e na competitividade, como motores do desenvolvimento humano, social e econômico, em nível planetário. Os estragos provocados por essa maneira de pensar e agir no mundo já preocupam muita gente e aumentam cada vez mais a desigualdade, a injustiça e a indiferença.

Há quem diga que o sistema é assim, que não há outro jeito, que “o mundo é mau”. E que a “utopia” da colaboração, em detrimento da meritocracia e do esforço individual, não vai levar ninguém muito longe. Mas há sim algo novo no ar. Hoje vemos iniciativas aparentemente difusas de indivíduos que estão tentando sair do sistema (ou, para os mais céticos, criar um novo sistema) e construir uma economia colaborativa, na qual o aprendizado e os ganhos sejam horizontalizados. Através da Internet e das redes sociais, meios mais democráticos já inventados até hoje dentro do próprio sistema (e que ainda estão muito longe de uma real universalização) temos uma oportunidade jamais vista de cooperação, aprendizado e crescimento conjunto.

De alguma forma, o filme retrata esses novos tempos, quando mostra a total dependência do protagonista dos cuidados, incentivos, invenções e provisões alheias. Muita gente se move para salvá-lo, reafirmando o valor da solidariedade humana. Mas ainda assim, o mito do herói guerreiro se sobrepõe a todo um trabalho coletivo, quando numa das cenas finais ele toma uma atitude ousada, sem consultar a equipe, repetindo um velho clichê hollywoodiano.

Há quem diga que o sistema é assim, que não há outro jeito, que “o mundo é mau”. E que a “utopia” da colaboração, em detrimento da meritocracia e do esforço individual, não vai levar ninguém muito longe. Mas há sim algo novo no ar.

No mundo corporativo, acontece algo parecido: Embora a colaboração e trabalho em equipe em todos os discursos sejam muito valorizados e incentivados, na prática, quem ainda leva os louros e fica com a melhor parte é o cavaleiro solitário que sabe vender seu peixe, sempre dando a entender que aprecia e coopera com os demais, mas ultrapassando todo mundo na reta final, para se destacar, como bom guerreiro. “Não basta botar os ovos, tem que saber cacarejar“, é um dos ditados mais repetidos do mundo corporativo, mantra dos que querem crescer na carreira.

Dessa forma, os agradecimentos à equipe depois de um trabalho bem feito acabam sendo, na maioria das vezes, mera formalidade, forjada pela etiqueta corporativa. Apesar de contar com a colaboração de inúmeras pessoas para chegar ao pódio, pois nada se faz sozinho, dentro da mente do guerreiro vencedor, existe a crença de que o merito é todo dele e isso rapidamente encontra ressonância no sistema: aumentos de salário, promoções, benefícios, status, poder, recompensas diversas. Os outros ainda são vistos, na prática, como obstáculos ou degraus para que ele atinja sua meta. Seu crescimento dependerá da sua habilidade política de vencer derrubando o mínimo de pessoas pelo caminho, mas ainda assim, muita gente vai tombar. Não existe ainda na pratica o “vamos juntos“, mas “eu vou, a princípio com a ajuda de vocês, e em breve, vou deixá-los para trás“.

Mesmo que o guerreiro tenha convicção de que nunca derrubou ninguém para chegar onde chegou, o sistema se encarrega de fazer isso por ele: pode ter nascido com uma dezena de privilégios (homem, branco, hetero, classe A, entre vários outros) que o colocam automaticamente numa posição estrategicamente vantajosa na disputa. Muitas vezes, o guerreiro reivindica um mérito que simplesmente não é dele, mas talvez das gerações que o precederam.

Aprende-se a camuflar a agressividade com fins manipulatórios: serei mais bem sucedido se aprender como tratar o outro da maneira como eu acho que ele deseja ser tratado, para fazer o que eu quero, visando o meu sucesso. Quem domina essa arte, vai sempre mais longe e conquista mais territórios de poder. Mas também é preciso convencer o outro de que ele não vai cooperar apenas por cooperar, mas vai ganhar algo com isso: quanto mais tangível, melhor. É a semente do toma lá dá cá, que tanto combatemos nos nossos protestos anti-corrupção, mas que cultivamos desde cedo em nossos filhos, na esperança de que vençam como nós ou apesar de nós.

O atual sistema educacional continua formando guerreirinhos solitários, que têm como principal missão sobreviver e vencer nesse mercado, vindos de escolas que valorizam o mérito acima de tudo, que segregam tudo o que é diferente, que não ensinam respeito, compaixão, empatia, humanidade. Esses guerreirinhos aprendem a brincar juntos, mas a brincadeira não é levada a sério, é sempre monitorada, dirigida para o objetivo maior: aprender a competir com todas as armas herdadas e todos os talentos adquiridos, visando o sucesso acadêmico e/ou profissional individual. Tudo o que fugir disso é secundario, menor.

Não podemos nos esquecer da grande maioria: crianças que ainda permanecem à margem desse sistema, por não possuírem o arsenal de luta adequado, contrariando todos os dias a máxima de que “basta querer e lutar que se consegue“. De vez em quanto, uma dessas crianças marginais se destaca como guerreira, mas trata-se mais de uma “anomalia” do sistema do que de uma regra ou receita que pode ser facilmente reproduzida. Essa acaba sendo a grande falácia da meritocracia, usar como exemplo sempre as exceções e nunca a regra da maioria.

Através de uma nova educação, precisamos preparar nossos filhos para novos tempos, em que a cooperação é vital, não para que eles sejam moralmente superiores às antigas gerações, mas por uma simples questão de sobrevivência. Num futuro bem próximo, de recursos naturais escassos, superpopulação e conflitos políticos, religiosos e econômicos crescentes, precisamos transmutar a energia guerreira de Marte em coragem de romper as antigas estruturas, para desbravar na Terra uma nova maneira de viver – pelo bem de todos.

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