A culpa é das revistas, dos livros e dos filmes que eu costumava ver, na minha infância e adolescência. Pronto, arrumei culpados, posso me eximir da responsabilidade de ter acreditado, durante boa parte da minha vida, que o amor era um barco a motor, com combustível renovável, piloto automático, navegando mansamente por águas tranquilas, enquanto eu, bela e faceira, me deleitava com a paisagem, com o prazer, com o sol, com tudo de bom. O mapa já estava traçado, eu só queria curtir.

Mas um belo dia eu me vi, claramente, num barquinho a remo, bem tosquinho, navegando por águas turbulentas. Percebi que tinha de remar ou não sairia do lugar. Percebi que não estava sozinha no barco e que o outro também tinha remos nas mãos, mas remava só se quisesse e quando quisesse. Eu não tinha mais nenhum controle sobre aquela embarcação.

Em alguns momentos, remava sozinha, completamente exausta, em outros percebia que o outro também estava remando e a coisa fluía com relativa facilidade… mas em todos os casos, em todas as situações, se eu parasse de remar, uma água barrenta começava a entrar cada vez mais forte pelas rachaduras da embarcação. E precisávamos saber para onde queríamos ir juntos, ou senão ficaríamos remando sem rumo, completamente perdidos.

O mais interessante é que essa metáfora do barquinho me serviu também pra explicar, em parte, o amor pelos filhos. Um amor que nem sempre surge espontaneamente no quarto da maternidade, na primeira mamada, na primeira fralda e às vezes até no primeiro ano. Falar sobre isso é tabu dos brabos. As poucas que se aventuraram a “dar a real” da maternidade foram execradas em praça pública, já que agora temos o extremamente atuante tribunal das redes sociais.

Tentar entender uma mãe que surta em pleno puerpério e mostra infelicidade com um bebê nos braços é um desafiante exercício de compaixão e destruição de paradigmas muito arraigados. A mãe que padece no paraíso é sempre forçada a agradecer eternamente por estar no paraíso, mas pouco ou nada compreendida no seu padecimento. E as setas mais venenosas às vezes podem vir de outras mulheres, outras mães.

Essa ideia de que amor se constrói, se cria, se cultiva, se trabalha, é nada romântica e portanto, pouco popular. Temos a necessidade de acreditar que o amor nos toma por completo e nos carrega vida afora como o barquinho a motor, numa potência movida a tesão, encantamento, interesses em comum, idealizações diversas. Mas o tempo passa e inevitavelmente a realidade se impõe, trazendo todos aqueles sinais que teimamos em ignorar. E aí se faz necessária uma escolha, uma decisão. Amar, simplesmente amar, apesar de.

Com os filhos, isso é bem mais nítido, pois tomamos a decisão de amá-los desde que surgem no mundo e precisamos sustentar essa decisão através de cuidados muito práticos. Vamos em frente, pois esse é o único caminho a ser percorrido. Alguém tem que dar banho, vestir, vacinar, alimentar, disciplinar, transportar, botar pra dormir, consolar, etc, aquele ser que é totalmente dependente de cuidados externos. A maioria de nós, mesmo terceirizando esses cuidados em alguns momentos, se vê frente a frente com essas necessidades vitais e percebe claramente que agora é pra valer. Temos todos ex-amores, mas nunca ex-filhos.

Há algumas décadas, ter um (ou de preferência vários) filhos era algo corriqueiro, banal, uma forma de criar mais mão de obra com o objetivo de trazer mais dinheiro pra família. Hoje um filho é quase que um troféu, um acontecimento, um tsunami de expectativas, encantamento, fofurices mil, desde o quartinho, até a festinha na maternidade, com bem nascidos, fotos profissionais e quadrinho artesanal na porta. É na verdade um tremendo moedor de dinheiro, ainda mais se quisermos dar à criança tudo o que não tivemos ou seguir determinados padrões ditados pelos mais abastados.

A idealização já começa nas dezenas de ultrassons a que nos submetemos, “só pra ver se está tudo bem”. Já imaginamos se será mais parecido com papai, mamãe, vovô, vovó… Já projetamos como será sua vida social, acadêmica, profissional. Achamos que sabemos muito do ser que carregamos no ventre, mas na verdade estamos apenas divagando sobre um ser que está apenas em nossa imaginação. Ficamos (ou optamos por ficar) cada vez menos alertas sobre a labuta diária da maternidade/paternidade.

A crença de que “só o amor basta” na criação de um filho pode ser desastrosa, pois esse tipo de amor, que só viceja no barco a motor, não pode acabar quando acabarem as ilusões sobre o novo ser humano que escolhemos botar no mundo. Muitos de nós, pais e mães de primeira viagem, são pegos de surpresa quando o pacotinho chega em casa e começa a mostrar a que veio. Talvez venha totalmente diferente do que prometiam as ultrassons. Talvez não seja tão fofo e bonzinho assim. E é aí que a verdadeira educação começa, no respeito à individualidade do outro. E é aí que precisamos tomar a decisão: no meio de choros intermináveis, de peitos cheios de leite, de noites em claro, de cansaço além da imaginação, decidimos remar o barquinho. E felizmente, dessa decisão, nunca nos arrependeremos.

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