Outro dia estava conversando com um amigo (vamos chamá-lo de João). Uma daquelas conversas que temos somente com quem confiamos. Num determinado momento, enquanto falávamos abertamente sobre nossas infâncias, João me veio com essa:

“Sabe, Vê, eu tenho certeza absoluta que meus pais me amaram. Acho muita babaquice essa história de ficar culpando pai e mãe por tudo. Na verdade, eu acho que fui amado até demais, não me deixaram quebrar a cara… Por exemplo, meus pais diziam que eu era um gênio, mas não me deixavam amarrar meus sapatos, mesmo eu já sabendo fazer. Diziam que eu tinha de me defender dos valentões na escola, mas minha mãe ia pra cima dos colegas que me batiam e só faltava bater neles pra me defender. Mais recentemente, diziam que eu tinha que viver com meu próprio dinheiro, mas eu contava sobre os rombos no meu orçamento e eles iam lá cobrir, sem questionar nada… Sei que sou capaz, tive a melhor educação, mas às vezes sinto que não vivo no meu maior potencial… E tenho medo de fazer a mesma coisa com meu filho!”.

Essa reflexão me fez pensar e escrever aqui, sobre um fenômeno que tenho notado nas nossas gerações, nos nascidos em 70/80/90. Quando falamos em falta de amor, parece que estamos falando só da geração dos nossos pais (40/50/60). Eles sim, não tiveram moleza em suas infâncias (ou pelo menos é isso que eles nos contam). Ser criança nos idos de 40 a 60 era algo sem a menor importância. Minha mãe dizia que quando meu avô olhava nos olhos dos filhos era o prenúncio do castigo. E hoje a gente olha nos olhos, elogia, dialoga, negocia, dá tudo do bom e do melhor… O que pode estar errado nisso?

Basta ver os consultórios apinhados de crianças fazendo as mais diversas terapias, muitas delas tomando medicações que só seriam receitadas, no passado, a pessoas de meia idade… Basta ver a nossa dificuldade em impor limites, já que não queremos repetir os erros, castigos e violências do passado, mas nosso repertório é limitado… Basta ver as angústias que nossos filhos sofrem desde muito cedo, angústias que às vezes nós nunca sofremos e não sabemos como dar apoio… Como é difícil lidar com as frustrações que um filho nosso sofre diariamente, seja porque pegaram um brinquedo dele no parquinho ou porque foi rejeitado pela turma…

“Esse desejo de prever todos os obstáculos e tapar todos os buracos na estrada da vida deles, pode, lá na frente, gerar seres inseguros, indecisos, medrosos, incapazes de um gesto de ousadia, de perseverar diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, de ter coragem frente às grandes batalhas da vida”.

Percebo que existe um narcisismo muito forte hoje nessa nova onda de maternidade e paternidade. Talvez, pra nos curarmos de nossas próprias infâncias, projetamos nos filhos nossos sonhos, expectativas e desejos, nossos próprios egos. Queremos que eles sejam lindos, inteligentíssimos, precoces, bem sucedidos, especialíssimos, revolucionários, competitivos, sempre felizes. Queremos que sejam os melhores, pra que não sofram. Se alguém os rejeita, nos sentimos pessoalmente rejeitados. Se alguém os machuca, queremos revidar. Se vão mal na escola, culpamos os professores. Afinal, são NOSSOS FILHOS e temos a obrigação de pavimentar e suavizar o caminho deles nesse mundo tão maluco de hoje… Mas será que esse é o caminho que vai fazer desses nossos eternos bebês pessoas mais felizes?

Essa superproteção, esse desejo de prever todos os obstáculos e tapar todos os buracos na estrada da vida deles, pode, lá na frente, gerar seres inseguros, indecisos, incapazes de um gesto de ousadia, de perseverar diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, de ter coragem frente às grandes batalhas da vida. Se eu digo que meu filho é capaz de amarrar o sapato mas nunca dou a oportunidade a ele de fazê-lo, mesmo que de forma imperfeita e até arriscada, transmito uma mensagem dúbia: por um lado digo verbalmente que ele é capaz, mas minha atitude mostra que não confio na capacidade dele.

Isso vale não só pra um exemplo banal como o do sapato, mas pra todas as áreas e desafios da vida. Vale até na hora de brincar. Ficamos tão ansiosos por estimular as crianças, por fazê-las seres sociáveis e populares, que monitoramos e guiamos todas as brincadeiras, não dando espaço para que elas criem suas próprias regras e resolvam sozinhas os próprios conflitos. Impedimos o brincar livre, “pelo bem delas”, mas impedimos também o livre desabrochar da infância. Ficamos aliviados quando brincam em segurança dentro de casa, de olho nas telas dos tablets e celulares ou nos brinquedos sofisticados e multicoloridos, em vez de se arriscarem lá fora e criarem seus próprios brinquedos.

Impedimos que se machuquem, inclusive fisicamente: forramos o chão, colocamos borracha em todas as quinas e arestas, afofamos os coitadinhos em bebês-conforto, instalamos os mais diferentes tipos de travas e dispositivos para impedir qualquer tipo de acidente. Também não queremos que eles se sujem, que entrem em contato com terra, barro, lama, poeira, vermes e germes. Deus nos livre. E entramos em pânico quando por alguma razão eles saem desse script tão bem montado e exercem com ferocidade o direito de serem simplesmente crianças.

Precisamos ter a coragem de deixar os buracos na estrada e voltar nossos esforços para conquistar o coração dos nossos filhos, através de ouvidos atentos, olhares amorosos, elogios bem escolhidos, atitudes coerentes. Precisamos afofar, proteger, cuidar das emoções dos nossos filhos, criar neles crenças positivas sobre si mesmos, dizer a eles que podem vencer todas as dificuldades, que não vamos salvá-los, mas seremos seus maiores apoiadores e incentivadores. “Meu filho, você consegue”, é um bálsamo que fortalece e suaviza qualquer solavanco no caminho. Eu e João concluímos que queríamos ter ouvido mais essa frase poderosa em nossas infâncias. E agora temos a maravilhosa oportunidade de repeti-la, exaustivamente.

 

 

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