Uma força poderosa, inata, que modela o corpo físico, com todos os seus órgãos, sentidos e funcionalidades. Uma força bruta, que não conhece limites, nem sabe o que é tempo e espaço. Essa ‘força estranha’, para os pais de primeira viagem, pode aparecer em forma de choro, birra, agitação, teimosia, destemor, joelhos ralados, fraturas e arranhões.

Na Antroposofia e na Pedagogia Waldorf, o primeiro setênio (os primeiros sete anos, ou primeira infância) é o território do querer, cuja maior expressão se dá no físico, através do movimento, da brincadeira.

De acordo com a teoria da Trimembração, apresentada no post anterior, o ser humano, desde o nascimento, se constitui em três dimensões: física (querer), emocional/alma (sentir) e espiritual (pensar). O pensar e o sentir isolados não formam o ser humano. É através do querer (vontade, instinto, desejo, ação) que o homem vai ter condições de realizar sua missão na Terra.

Desde que nasce, esse serzinho tão amado e protegido, agora fora do útero, deseja avançar, sem ainda nem mesmo saber para onde está indo. Vai conhecer, agarrar, lamber, morder, tocar, explorar, correr, saltar, se aventurar, testar todos os limites físicos. A partir dos dois anos, vai tentar se impor como indivíduo, com vontades próprias, normalmente contrárias às dos pais. Tudo isso vai formar seu corpo físico e psíquico, de maneira saudável.

A criança entende, sente e percebe o mundo primeiro com o sentido do tato. O movimento de sucção é mais primária forma de se obter sobrevivência, segurança, aconchego e prazer. O recém nascido é um grande órgão sensorial, que se contrai por inteiro ao entrar em contato com o seio da mãe, sugando-o com toda a vontade e determinação do mundo.

Até os sete anos, a criança ainda não entende profundamente o sentido das palavras. Por isso, muitas vezes, notamos na prática que a maioria delas ignora os nossos discursos, broncas e negociações. Talvez por isso tenhamos, de forma equivocada, acreditado que os castigos físicos fossem necessários no passado. Mas talvez uma maneira de obter a atenção (e obediência) deles seja justamente respeitar essa flor bruta, porém sensível.

É bem comum comentarmos em rodas de pais e mães, orgulhosos e admirados, como nossos filhos são hoje mais espertos do que jamais fomos. Admiramos a precocidade deles no raciocínio, fala, leitura, escrita e agilidade ao manusear nossos tablets, computadores, tevês e celulares, mas ignoramos ou minimizamos as consequências de estimular o pensar antes do querer.

Pesquisas recentes alertam que muitas crianças consideradas “precoces” na primeira infância podem apresentar dificuldades emocionais na entrada da adolescência e vida adulta, em função de terem sido excessivamente estimuladas no intelecto sem terem sido antes acolhidas em sua necessidade fundamental, o desenvolvimento físico.

O que hoje em muitos casos é tratado como hiperatividade ou apatia (e todos os rótulos derivados) é visto pela Antroposofia como um querer reprimido, atrofiado, não compreendido. Nossas vidas regadas a violência e medo, sem qualidade de vida e sem espaços verdes e seguros, impedem nossos filhos de desfrutar da natureza e exercer o direito ao brincar livre e à livre movimentação. Em vez disso, apelamos para diversões “seguras” entre quatro paredes, que estimulam bem mais a mente do que o corpo. Fazemos tudo isso por acreditar que estimular a inteligência cognitiva de nossos filhos é algo imprescindível para garantirmos seu sucesso e sobrevivência futuros.

As consequências de colocar o carro do pensar na frente dos bois do querer impactam também o próprio desenvolvimento físico da criança. A troca dos dentes, por exemplo, que antes se iniciava por volta dos sete anos, já foi antecipada em até três anos, em muitos casos. De acordo com a medicina antroposófica, se a força do querer for desviada da formação do corpo físico para o intelecto, a criança pode perder vitalidade física, pode amadurecer antes da hora e essa precocidade gera consequências de saúde até a vida adulta.

É bem comum em rodas de pais e mães comentarmos, orgulhosos e admirados, como nossos filhos são hoje mais espertos do que jamais fomos. Admiramos a precocidade deles no raciocínio, fala, leitura, escrita e agilidade ao manusear nossos tablets, computadores, tevês e celulares, mas ignoramos ou minimizamos as consequências de estimular o pensar antes do querer.

Essa aparente aversão à tecnologia para crianças é relativamente recente e controversa, segue na contramão da cultura e dos costumes, mas encontra cada vez mais defensores. Os grandes executivos do Vale do Silício, embora sejam os criadores de tudo o que há de vanguarda após a invenção da Internet, estão criando seus filhos bem longe da tecnologia, em escolas sem computadores, pois acreditam que devem ajuda-los a desenvolver resiliência, coragem, cooperação e compaixão, antes de estimular o intelecto.

Essa preocupação em adiar o pensar, para os adeptos da Pedagogia Waldorf, tem ainda outra razão de ser. Até os sete anos, a criança dispõe, além do querer, de outra força inata: a imitação. Nas inúmeras tentativas de modelar esse mundo, imitando vozes, gestos, comportamentos e atitudes, a criança vai se tornando um ser humano, absorvendo rapidamente o mundo do adulto com o qual ela mais convive.

Rudolf Steiner disse que o que se diz a criança, o que se ensina a criança, não a impressiona. Mas como você realmente é, se você é bom e expressa esta bondade em seus gestos ou se você é bravo ou raivoso ou expressa isso em seus gestos, em suma, tudo que você mesmo faz prossegue dentro da criança. Isto é essencial. A criança é, toda ela, um orgão sensorial, ela reage a todas impressões que são estimuladas nela por outras pessoas. Portanto, é essencial que não se pense que a criança seja capaz de aprender (pela razão) o que é bom, o que é ruim… mas é essencial que se saiba que tudo o que é feito na proximidade da criança é transformado no organismo infantil em espírito, em alma e em corpo. A saúde da criança durante toda a vida vai depender de como nos portamos em sua proximidade. As tendências que a criança desenvolve dependem de como nos comportamos perto dela“. 

Através dessas forças inatas, as crianças nos ensinam a incrível e cada vez mais rara capacidade de estar sempre vivendo no momento presente. Para saborear o aqui e agora em tão boa companhia, nós adultos precisamos nos despir de nossos condicionamentos, deixar de lado um pouco os aparatos tecnológicos e reaprender a brincar com elas, com os pés na terra, grama ou areia e os olhos no sol ou nas estrelas.

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