No post anterior, falamos sobre a força do querer, de acordo com a teoria da Trimembração. Neste terceiro post sobre Pedagogia Waldorf, vamos explorar as outras dimensões da existência humana: o sentir e o pensar.

Dos zero aos sete anos, estávamos no território do querer, da formação do corpo físico, através do movimento e do contato. Se foi respeitada e acolhida a necessidade da criança por movimento e exploração livre do ambiente, de preferência em contato constante com a natureza, se na primeira infância houve contato físico constante da mãe ou do cuidador, que passou sensação de proteção e aconchego, a criança entende que “o mundo é bom” e incorpora essa segurança em sua maneira de agir.

A partir dos sete anos (ou cada vez mais cedo, de acordo com os estímulos a que é exposta) a criança entra no território do sentir e aprende a ler, a escrever, a conhecer o mundo no sentido ético, moral e estético. Passa a entender regras, códigos, condutas. A beleza, em todas as suas formas e expressões, exerce um enorme fascínio na mente infantil do segundo setênio. O interesse vem através da imagem, das histórias, do envolvimento, permeados pelo afeto. Cabe ao adulto transmitir os primeiros conhecimentos do Ensino Fundamental a essa criança de maneira a despertar nela o sentimento de que “o mundo é belo“.

Dos sete aos 14 anos, o aluno Waldorf tem contato intenso e constante com todas as formas possíveis de arte. O elemento artístico suporta toda a grade curricular. Tudo é ensinado sob a perspectiva artística, através de música, dança, teatro, trabalhos manuais, desenho, pintura, poesia… O viés artístico torna qualquer conteúdo mais vibrante, interessante, além de reforçar atitudes positivas, como ousadia, perseverança, ponderação, interesse, foco, atenção, flexibilidade, virtudes tão necessárias à convivência social e ao êxito em qualquer empreendimento.

“O que realmente interessa é que a autoridade do professor surja de um modo natural. Caso contrário, não terá valor. Toda devoção que for obrigatória, fundamentada em prescrições legais da escola, não tem valor para o desenvolvimento do ser humano”. (Rudolf Steiner, palestra de maio de 1922).

Em vez de manter o foco no desempenho e nas notas para avaliar a “performance” de um aluno, um professor Waldorf está mais interessado em conhecer a fundo aquele ser humano, com suas particularidades e temperamentos. O professor é a figura central, que acompanha o aluno durante toda a vida escolar no Ensino Fundamental. Essa ideia pode parecer absurda para nós, que passamos a vida toda, na volta às aulas, na tensão de não saber quem seriam nossos professores ou colegas.

A intenção é criar um vínculo profundo de confiança, valorizando os talentos e particularidades de cada criança. Além disso, contar com um único professor que acompanha a vida escolar do aluno durante sete ou oito anos consecutivos tem a vantagem de permitir que os conteúdos sejam explorados e reciclados de formas diferentes, em diferentes momentos de maturidade, trazendo novas descobertas e significados. Imagens que se transformam em letras, movimentos que se transformam em números, fábulas que revelam as fraquezas humanas e lendas que mostram a grandeza que podemos alcançar em nosso aperfeiçoamento.

Dos 14 aos 21 anos o agora adolescente entra definitivamente no território do pensar. Já começa a entender mais claramente as causas e consequências de seu próprio comportamento, entra em contato com as teorias mais complexas e abstratas que norteiam o currículo escolar. Começa a perceber cognitivamente a realidade, com todas as suas contradições, sem no entanto se contaminar com isso, pois nos setênios anteriores impregnou seu corpo físico e sua alma com os conceitos de um mundo bom e belo. E agora ele consegue enxergar um mundo verdadeiro. Nessa fase, as exigências são muito maiores, no sentido de se obter um raciocínio cada vez mais sofisticado, voltado a método científico, mas sem nunca esquecer do viés artístico. Os alunos não carregam livros e sim fichários, onde criam seus próprios livros, com todos os conteúdos estudados, cheios de ilustrações elaboradíssimas, feitas por eles mesmos. Verdadeiras obras de arte que vão guardar para sempre na memória e no coração.

O que percebo, como curiosa no assunto, é que existe um respeito muito grande pela capacidade cognitiva e emocional do aluno, no sentido de nunca sobrecarregá-lo com assuntos e abordagens que possam desviá-lo de seu potencial maior num determinado setênio. Cada um dos conteúdos apresentados é cuidadosamente introduzido, apelando para a beleza e imaginação, no segundo setênio, e para a razão e a verdade, no terceiro. A figura do professor também precisa estar sensibilizada disso.

No documentário “Preparing for Life“, que mostra a realidade de escolas Waldorf espalhadas pelo mundo, os professores demonstram um zelo muito grande pela maneira como devem ser percebidos pelos alunos:  sempre como uma autoridade, que no segundo setênio se impõe pelo afeto e pela imaginação e no terceiro setênio se impõe pelos valores, competência e coerência entre o que faz e diz. Numa época em que o ofício de ensinar anda tanto em baixa, devido à baixíssima valorização da classe docente, é um alento ver que o professor ainda ocupa um lugar de destaque em algumas escolas.

Nos próximos posts, vamos explorar melhor como ajudar nossos aproveitar o melhor de cada um dos três primeiros setênios.

Para saber mais:

 

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