Aproveitando o Dia das Mães, nesta semana em que verei ainda muitas homenagens, fotos, vídeos, mensagens edificantes e comoventes, dirigidas a todas as mães do planeta, quero fazer uma homenagem pública ao pai da minha filha.

Antes que as feministas mais “radicais” interpretem de forma distorcida esse texto, vou logo explicando: reconheço imensamente o valor desse pai, pois é a participação ativa dele no crescimento e criação da nossa filha que me permite ser a melhor mãe que posso ser, dentro de todas as minhas limitações. Não sei que tipo de mãe eu seria sem essa parceria.

Esse Dia das Mães é uma data tão comercial quanto o Dia dos Pais, o Dia das Crianças e todas as datas do calendário que movem o comércio e o consumismo. Mas não há como negar que, pelo menos uma vez ao ano, a gente para pra pensar sobre nossas mães, sobre nossos papéis como mães, sobre nossos filhos. E isso é bom. É o momento de receber flores, presentes, almoços e aquele tapinha nas costas pelo trabalho braçal e penoso de cada dia, que é criar nossa prole.

Mas essa celebração toda só faz sentido pra mim quando sei que, a meu lado, está um homem que deseja tão fortemente ser pai quanto eu desejo ser mãe. Um homem que aprendeu a se despir de todas as armadilhas dos papéis definidos pelo patriarcado e que deseja estar junto comigo nessa jornada, participando desse trabalho braçal da maneira mais equânime possível.

Sei que tenho sorte. Leio e ouço centenas de depoimentos de mulheres que não têm a seu lado um homem desses, seja porque são mães solteiras/separadas ou seja porque são casadas, mas se sentem totalmente sozinhas nessa empreitada. O pai só aparece nas fotos do Facebook, nos momentos lúdicos, em dias de festa, mas não comparece pra trocar as fraldas sujas, pra esquentar o leite, pra acordar de madrugada, pra administrar os conflitos, pra disciplinar. Não se oferece pra dividir, simplesmente porque não reconhece que o trabalho braçal de criar filhos no dia a dia é tão estressante quanto qualquer trabalho remunerado que se exerce fora de casa. Ou simplesmente porque “esse é o papel da mãe”, e pronto.

Esse tema da divisão de tarefas é controverso e explosivo. Há quem queira, em pleno século 21, determinar que ficar em casa e assumir 100% dos cuidados com os filhos ainda é o verdadeiro papel da mulher e que ao homem cabe apenas ser o provedor. Há quem acredite que dessa forma os casais podem ser mais felizes, “como eram antigamente“. Eu discordo. Esses papéis definidos de fora para dentro, baseados em modelos rígidos, sem reflexão íntima do casal, sem conversa, sem base na realidade, é que a médio e longo prazo podem gerar animosidade e ressentimento suficientes pra implodir um casamento.

Nos últimos 50 anos, as mulheres assumiram um protagonismo inédito sobre suas próprias vidas e ocuparam espaços inimagináveis na sociedade. Isso não tem volta. Portanto, pretender que o melhor destino pra todas nós ainda seja a casa e os filhos é um retrocesso. Talvez nossa maior conquista hoje seja justamente a de termos total liberdade pra fazer uma escolha consciente de sermos “belas, recatadas e do lar“, sem sermos pressionadas a isso, sem que esse seja o único caminho para sermos validadas, admiradas e felizes. E de poder, finalmente, contar com os homens nesse arranjo.

Talvez nossa maior conquista hoje seja justamente a de termos total liberdade pra fazer uma escolha consciente de sermos “belas, recatadas e do lar”, sem sermos pressionadas a isso, sem que esse seja o único caminho para sermos validadas, admiradas e felizes. E de poder, finalmente, contar com os homens nesse arranjo.

Aquela ajuda que nossas mães tiveram, contando com suas próprias mães, avós, tias, amigas, vizinhas, empregadas, amas de leite e babás, sempre solícitas, não existe mais, para a maioria de nós. Bancar financeiramente uma pessoa pra tomar conta de nossos filhos virou missão quase impossível. Sem essa retaguarda, que antes era garantida (pelo menos para as mais bem nascidas e abastadas) nos vemos cobrando do homem que está ao nosso lado atitudes e comportamentos que, em gerações passadas, seriam inimagináveis.

Nesses tempos em que as identidades masculina e feminina andam meio borradas, as mulheres das novas gerações não aceitam mais essa injustiça (na divisão das tarefas) de forma passiva. Há muitos desencontros, brigas, DR’s. Muitos arranjos e rearranjos. Mas a dificuldade parece sempre esbarrar na valorização do papel de mãe, que no dia a dia parece invisível. Às vezes, essa injustiça só se nota quando a criança apresenta algum problema, físico, emocional ou comportamental. E normalmente a primeira pergunta que vem à mente da maioria é: “cadê a mãe dessa criança?“…

Admito que também acredito nesse papel fundamental da mãe. Não há como negar a força e a influência maternas nos primeiros anos de vida de uma criança. Mas não há como negar que, para estar disponível fisicamente e emocionalmente pra sua cria, essa mãe precisa de apoio. Precisa de braços pra ajudar, sempre presentes. E quando se sente sozinha, sobrecarregada, sem nenhum tipo de solidariedade prática, essa mulher se ressente. Sofre e passa esse sofrimento à cria, de alguma forma. O filho pode virar um fardo. E isso não é fácil de admitir, mas acontece sempre, nas melhores famílias, em todas as classes sociais, raças, credos, ideologias.

Creio que temos agora uma grande oportunidade de mudar esse jogo: investindo pesado nas novas gerações, na conscientização dos pais e mães dos nossos queridos meninos. Se nós os educarmos pra isso, eles terão a oportunidade de viver a paternidade de uma maneira muito mais intensa, amorosa, verdadeira, presente. Não serão menos homens, pelo contrário, finalmente vão incorporar elementos femininos fundamentais à sua psique masculina, que contribuirão para que sejam seres humanos mais inteiros e felizes. Poderão finalmente construir uma identidade masculina que não seja simplesmente o oposto do que se convencionou chamar de identidade feminina.

Por outro lado, nossas meninas, se escolherem estar ao lado desses futuros homens, também serão mais felizes. Se sentirão apoiadas e amadas o suficiente para mergulharem, de corpo e alma, se assim o desejarem, nessa missão árdua e linda da maternidade. Poderão finalmente reintegrar essa faceta tão feminina às suas personalidades, depois de séculos de opressão, sem serem desvalorizadas por isso. Que possamos, todos nós, pais e mães de meninos e meninas, sonhar e criar pra eles esse futuro mais humano e autêntico.

 

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