A gente sabe, teoricamente, que se educa pelo exemplo. Creio que se fazer respeitado e admirado na vida de um filho é um longo processo, que só termina no finalzinho da vida, ou pode (pra quem acredita) ir além. E está totalmente vinculado ao auto-conhecimento.

“Educar não é só transmitir conceitos, valores e teorias. Para entrar em contato com o outro eu preciso primeiro estar em contato comigo mesma”, afirma a terapeuta ocupacional, mestre em pediatria, contadora de histórias, atriz e escritora Juliana Corrulon. Hoje ela mora com marido e filho na Chapada dos Veadeiros, em Goiás e é coordenadora da Escola Democrática Janela. Tive a feliz oportunidade de entrevista-la aqui pro blog, por telefone.

Juliana é daquelas mulheres que buscam colocar seus talentos a serviço de uma missão pessoal. “Meu propósito é viver em coerência com meus valores, viver o que eu aprendo e escrevo”, conta ela. Seu trabalho de consultoria em “educação consciente” para escolas, educadores e pais, baseia-se em conceitos preconizados pela escritora argentina Laura Gutman, autora de um dos livros que mais me impactaram na vida, “A maternidade e o encontro com a própria sombra“.

“Educar não é só transmitir conceitos, valores e teorias. Para entrar em contato com o outro eu preciso primeiro estar em contato comigo mesma”

Juliana foi uma das responsáveis por trazer Laura ao Brasil, numa de suas últimas visitas, em 2015. “Através da Biografia Humana, proposta pela Laura e também de outros conceitos, como o da comunicação não violenta e da disciplina positiva, eu ajudo pais e educadores a perceberem e saberem interpretar seus próprios sentimentos e trazerem suas sombras à consciência, a partir dos problemas e demandas que eles me apresentam”, explica.”Quando resolvi trabalhar com crianças (foi uma das fundadoras da escola “Caminho do Meio“, de inspiração budista, na grande Porto Alegre) percebi que trabalhar com os cuidadores dessas crianças também era vital. Educar é um trabalho que engloba toda a sociedade”, conta Juliana. “A gente não educa o outro se não se educa primeiro”, reforça.

Essa auto-educação, segundo Juliana, envolve perceber como nossas próprias infâncias, com suas alegrias, desafios e tristezas, moldaram e influenciaram nossas escolhas de vida. Não se trata aqui de nos abstermos da responsabilidade sobre essas escolhas, simplesmente culpando nossa criação, nossos pais ou antepassados. É justamente o contrário: entender nosso passado nos liberta dele. “É preciso entender minha história, minha biografia. Se não fizer esse resgate, corro o risco de interpretar de forma distorcida as atitudes dos meus filhos, vendo-as sempre como mau comportamento”, explica.

Depois de entender e revisitar a própria história, é preciso também aprender com as crianças a viver no presente. Tenho falado muito sobre isso, aqui e em outros posts, pois considero esse o nosso maior desafio, como pais do século XXI. Juliana usa uma situação muito comum, a famigerada “birra”, como exemplo sobre o que significa, na prática, estar presente. “Eu não gosto de usar essa palavra ‘birra’. Na verdade, eu penso mais em ‘falha de comunicação’. Se meu filho se descontrola e se eu não estou presente, a raiva me consome e eu despejo esse sentimento sobre a criança, eu me descontrolo também. Mas quando eu me responsabilizo pelas minhas escolhas e meu comportamento diante dos meus filhos eu tenho gerência sobre minha vida e posso educar com consciência”, acrescenta.

Um terceiro ponto, que talvez seja importante reforçar, é que essa busca pelo auto-aperfeiçoamento, por entendermos nossa própria história e estarmos mais presentes, física e emocionalmente, não tem como objetivo a perfeição. Nós erramos e somos humanos. A culpa existe, mas precisamos aprender como lidar com ela (falo mais sobre isso aqui). “Precisamos ter mais amor, compaixão e paciência para acolhermos nossas próprias histórias”, enfatiza Juliana.

Com o objetivo de reunir e disseminar toda sua experiência em educação, Juliana resolveu escrever um livro, “Educar para a Felicidade“, que está em pré-lançamento, graças ao financiamento coletivo. Há algum tempo, ela se dedica a escrever sobre o assunto. É criadora do site ‘O mundo é uma escola‘, uma das primeiras tentativas de mostrar e trabalhar reais sentimentos e questionamentos da maternidade, até então, pouco abordados na internet. “O que eu mais via na época eram sites e blogs que só falavam sobre como decorar o quarto do bebê”, conta.

Juliana admite que esse caminho da educação consciente é “difícil e deve ser feito diariamente”. Nessa travessia de uma vida inteira, podemos contar com a ajuda de nossos maiores mestres: “As crianças podem nos ensinar a fazer o caminho de volta pra dentro da gente. Elas são nossos espelhos“, afirma.

Anúncios