O que o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio tem a ver com o tipo de educação que damos aos nossos filhos? Como nossas atitudes e preconceitos acerca do sexo oposto moldam uma sociedade ainda tão violenta? 

A história da adolescente estuprada por 33 homens no Rio, semana passada, trouxe à tona novamente o impiedoso tribunal de inquisição da internet. Depois de indas e vindas e informações desencontradas, recheadas de apedrejamento virtual, o estupro foi recentemente confirmado. Mas nós ainda temos a péssima mania de duvidar da palavra de uma mulher violentada, até que se prove o contrário. Especialmente quando essa mulher não se encaixa no trinômio “bela, recatada e do lar”. Se ela foge do modelo, “merece a tragédia”, pois “ela procurou”.

Coletivos feministas se preparam para transformar junho de 2016 num marco pela libertação, mostrando que muitas de nós não vamos mais nos calar diante de qualquer tipo de violência de gênero. Mas por que tanta luta, tanta briga e tanta raiva, questionam alguns? É simplesmente porque estamos em junho de 2016 e o machismo ainda vive forte entre nós, apesar de tantos avanços que nós mulheres fizemos nos últimos 50 anos. 

Essa punição da mulher, por exercer uma sexualidade livre ou por não se encaixar nos padrões femininos impostos, faz parte do que hoje chamamos de “cultura do estupro“. Toda tentativa de objetificar o corpo da mulher, para que ela deixe de ser sujeito, alimenta e naturaliza essa cultura. Há quem ignore essa triste realidade e ainda se proclame “feminina, não feminista”, ou diga que é tudo “mimimi, radicalismo, vitimização e conspiração contra a família brasileira”. Há quem ainda pense, em pleno século 21, que defender direitos e liberdades das mulheres é “desnecessário”, “pode acabar com a sociedade”, “é coisa do demônio” ou, pasmem, “coisa de mulher feia”. 

Precisamos conter essa perigosa onda onde ela ainda é marolinha: nas nossas próprias casas, com nossos próprios filhos. Agir enquanto as águas turvas do retrocesso não causam maiores estragosEsse combate envolve centenas de pequeninas batalhas cotidianas, como ensinar nossos filhos o respeito ao corpo alheio, especialmente ao corpo feminino, a divisão justa de tarefas domésticas e de cuidado com os filhos, evitar piadas que degradem ou naturalizem a violência contra a mulher, parar de exigir dos meninos que sejam “pegadores” e das meninas que sejam “recatadas”. Se não houver pegador de um lado, não precisa haver recato do outro. No lugar disso, há liberdade e respeito, para ambos os sexos. 

Precisamos conter essa perigosa onda onde ela ainda é marolinha: nas nossas próprias casas, com nossos próprios filhos. Agir enquanto as águas turvas do retrocesso não causam maiores estragos. Esse combate envolve centenas de pequeninas batalhas cotidianas, como ensinar nossos filhos o respeito ao corpo alheio, especialmente ao corpo feminino.

Se ensinarmos desde cedo nossos meninos a respeitarem nossas meninas, não vamos retirar deles sua masculinidade, como temem alguns. Pelo contrário, vamos ensiná-los a ser verdadeiros “homens de bem”. Vamos ensinar a eles que mulher não é propriedade, nem motivo de piada só por ser mulher, nem troféu. É ser humano que hoje tem vontade própria e liberdade para escolher como e com quem quer viver sua sexualidade, mesmo que não concordemos com essas escolhas.

Vamos canalizar a energia masculina dos meninos para os esportes competitivos, para o contato com a natureza, para as atividades artísticas, para que, quando resolverem exercer sua sexualidade,  possam se tornar homens inteiros e não predadores. Para que possam expressar seu interesse pelas mulheres de forma saudável, sem toda essa carga depreciativa, violenta e destrutiva, reproduzida sem questionamento há milênios. Para que as mulheres que futuramente se relacionem com eles tenham confiança e intensa admiração por eles. E vamos aceitar, acolher e encorajar todos os meninos que, independentemente da orientação sexual, não se encaixam no estereótipo do “macho”, mas que merecem igualmente respeito e admiração.

Vamos ensinar às nossas meninas que elas se bastam por si mesmas e não precisam de homem nenhum ao lado pra terem valor. Mas se quiserem um marido, filhos e ser “donas do lar”, têm hoje total liberdade para fazê-lo, com alegria, pois essa, felizmente, não é a unica escolha de vida delas. Vamos ajuda-las a descobrir sua beleza original, sem buscar modelos externos, sem tentar desesperadamente encaixa-las em padroes inacessiveis. Vamos ajuda-las a amar, defender e respeitar seus próprios corpos, em qualquer tamanho e formato. Vamos encoraja-las a ter vida e opiniões próprias e a lutar contra qualquer forma de injustiça que atinja outras mulheres. Vamos parar de dizer a elas que mulheres são rivais e vamos nos apropriar da força, da solidariedade e dos milagres que surgem quando ajudamos umas às outras de coração aberto. Vamos ensina-las a amar e respeitar os homens, simplesmente porque são tambem seres humanos, imperfeitos. Vamos parar de incutir na mente delas a ideia do principe encantado, pois as princesas de hoje não combinam mais com os príncipes do passado.

Acabar com a cultura do estupro é um trabalho de todos nós. Confesso que ainda preciso me despir de muitos preconceitos arraigados em mim por uma educação e sociedade machistas. Mas já entendi que sou responsável por ajudar a criar um futuro menos ameaçador, não só pra minha filha, mas pra todas as crianças, pois não vivemos isolados. Começa hoje, começa agora. Vamos juntos?

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