Muito já se sabe sobre obesidade infantil, um problema multifatorial, cuja maior parte das causas já foram detectadas. Mas por que é tão difícil fazer algo efetivo a respeito? Por que essa doença cresce de forma exponencial no mundo todo? Como a escola pode ser aliada (ou vilã) nessa guerra por uma vida mais saudável?

Quando criança, eu não era fã de arroz e feijão. Meu barato eram os doces, as guloseimas. Tinha um peso considerado normal e os problemas foram aparecer bem depois, em plena adolescência. Desde então, começou um ciclo interminável de dietas, impulsionado pelos padrões irreais de beleza que massacram as meninas desde cedo, há gerações. A conexão entre obesidade, doença e estigma social ainda segue forte, especialmente para as mulheres.

Há algum tempo atrás, emagrecer era simplesmente uma questão de força de vontade. “Só é gordo quem quer” era um dos livros mais vendidos nos anos 80. As dietas eram o caminho óbvio para “deixar de ser gordo”. Bem recentemente, a ciência tem comprovado que o ambiente obesogênico no qual estamos inseridos tem influência direta em nosso peso corporal, muito mais do que a genética ou a “falta de vergonha na cara”. Tem mostrado também que dietas restritivas, ao contrário do que se imaginava, podem agravar transtornos alimentares. E que nem todo magro, seja adulto ou criança, é saudável. Estudos recentes vêm mostrando que a maneira como nascemossomos alimentados nos primeiros meses de vida determinam em grande parte o bom funcionamento dos nossos sistemas digestivo e imunológico. Mas o fator de maior influência ainda é o entorno social: família, escola, amigos.

Há algum tempo atrás, emagrecer era simplesmente uma questão de força de vontade. “Só é gordo quem quer” era um dos livros mais vendidos nos anos 80. Bem recentemente, a ciência tem mostrado que o ambiente obesogênico no qual estamos inseridos tem influência direta em nosso peso corporal, muito mais do que a genética ou a “falta de vergonha na cara”.

Hoje estamos mergulhados numa epidemia de obesidade infantil e doenças metabólicas, causada em boa parte pela oferta maciça, diária e constante de alimentos ultraprocessados. Essa epidemia cresce ainda mais velozmente nas camadas menos desfavorecidas da população brasileira, mais sujeitas à crise econômica e à baixa qualidade de vida. Independentemente de classe social, nós nunca comemos e alimentamos nossos filhos com tanta coisa empacotada e aditivada, com dezenas de produtos químicos nos rótulos, cujos nomes, composição e malefícios desconhecemos e cujo tamanho de letra é quase impossível de ler.

“Na minha época”, as guloseimas tinham data e hora para serem oferecidas. A maior parte delas era fabricada artesanalmente, nas cozinhas das mães, avós, tias, mães de amiguinhos. Um brigadeiro e um bolo de chocolate eram motivo de festa e celebração, apenas. E mesmo comendo essas delícias somente em ocasiões especiais, feitas por mãos amorosas, eu vivi na pele os efeitos do vício em açúcar.

Tenho lido muito sobre o embate entre defensores da indústria alimentícia e entidades que defendem os interesses (e a saúde) das crianças. Vários países (inclusive o Brasil) vêm regulando ou proibindo publicidade infantil, gerando um debate acalorado sobre os limites da publicidade versus liberdade de expressão. Alguns argumentam que proibir as empresas de anunciarem seus produtos para esse público é exagero, terrorismo, “chatice politicamente correta”. E outros mostram evidências de um lobby real e pernicioso do mercado sobre todas as nossas instituições: classe médica, política, jurídica, artística. Os pediatras dos nossos filhos, por exemplo, são fortemente assediados pelas grandes empresas de alimentos e recomendam seus produtos, totalmente dispensáveis, cheios de sal, açúcar, gorduras e aditivos químicos, em seus próprios consultórios. Infelizmente ainda é raro encontrar um pediatra realmente atualizado em termos de nutrição infantil e que não se submeta a esse assédio.

As vendas de refrigerante caíram quase 30% no Brasil nos últimos anos e com isso, surgem novos produtos simulando saudabilidade, para tentar recuperar um público que, felizmente, está cada vez mais informado. A publicidade está saindo da TV aberta e as grandes empresas (não só as de alimentos, bebidas e fast food) usam as celebridades da internet para lucrar de forma mais eficaz. Ao mesmo tempo, os defensores da alimentação saudável e natural se reproduzem em velocidade astronômica na web. Radicalismos e divergências ideológicas e gastronômicas à parte, existem centenas de movimentos promovendo mudanças na forma de comprar, preparar e saborear alimentos. Essa onda vem gerando um boom de celebridades da saúde e do “mundo fitness”.

A apresentadora Bela Gil que o diga. Embora seja criticada e ridicularizada inúmeras vezes, pelos defensores da “liberdade nutricional”, Bela segue firme e forte, conquistando cada vez mais seguidores. Na mesma onda, seguem os escritores e pesquisadores Michael Pollan e Michael Moss. Todos eles defendem o ato de preparar “comida de verdade” e a redução drástica no consumo diário de alimentos processados. A tal praticidade, argumento mais alardeado pela indústria, usado para atrair quem diz que não tem tempo de cozinhar comida de verdade em casa, está sendo finalmente questionada.

Nos próximos posts, vamos tentar entender como a indústria de alimentos ultraprocessados invadiu as escolas no mundo todo. Vamos discutir como podemos proteger nossos filhos no ambiente escolar e buscar soluções de redução de danos causadas pelo ambiente obesogênico em que vivemos.

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