O que é saudável? Como saber se estamos no caminho certo, rumo a uma alimentação ética, alinhada com nossos valores, propósitos e desejo de viver mais e melhor? Nessa continuação da série sobre comida, vamos falar de alimentação nas escolas e conhecer as dicas da chef Paola Carosella, sobre como cozinhar mais em casa e educar nossos filhos para melhores escolhas.

Estamos começando a surfar na tendência mundial da saudabilidade, que talvez seja uma resposta exagerada a esse ambiente obesogênico no qual vivemos. Transgênicos, agrotóxicos, conservantes, edulcorantes, excesso de sódio e adoçantes competem com novas descobertas ditas “naturais” que prometem cura de doenças. A cada novidade, alimentada pela mídia, somos jogados de um lado para o outro, sem saber ainda ao certo se café faz bem ou não, se podemos comer ovos todos os dias, se óleo de coco emagrece mesmo, se a carne que comemos é segura ou se é melhor mesmo viver sem carne, se o glúten é o mais novo vilão da dieta… E nunca estivemos tão gordos, morrendo de doenças cardiovasculares e metabólicas.

Talvez, se conseguirmos estabelecer um ponto comum de partida, apesar das nossas diferenças ideológicas, de gostos e preferências, possamos nos unir para mudar o que podemos, quando podemos, na nossa realidade e na realidade dos nossos filhos. Penso que, por enquanto, temos um trabalho inicial pesado: a luta contra os ultraprocessados, ou industrializados.

A ideia de alimentar multidões usando o sistema produtivo industrial, de início, era promissora. Criou-se uma mentalidade arraigada de que a indústria iria resolver o problema da fome no mundo. A tecnologia seria usada de forma a aumentar a produção no campo, através do uso de agroquímicos, mantendo os alimentos conservados por mais tempo, podendo ser transportados por longas distâncias, com “segurança” e “sabor”.

Especialmente depois da segunda guerra mundial, o marketing norte-americano atingiu em cheio as então donas de casa, que passaram a ver na indústria um aliado para enfrentar o pesado dia a dia doméstico. Em vez de comprar, descascar, picar e cozinhar, era mais fácil abrir uma embalagem e coloca-la no forno, microondas ou aquecê-la rapidamente no fogão. Em nome da praticidade, com a crescente participação da mulher no mercado de trabalho, a indústria alimentícia avançou com força nas décadas subsequentes, criando gerações e gerações alimentadas na base da conveniência e praticidade. O ganho foi espetacular por um lado, mas hoje nos custa a saúde.

“Em nome da praticidade, com a crescente participação da mulher no mercado de trabalho, a indústria avançou com força nas décadas subsequentes, criando gerações e gerações alimentadas na base da conveniência e praticidade. O ganho foi espetacular por um lado, mas hoje nos custa a saúde”

Como era de se esperar, se vivemos num sistema educacional estilo linha de montagem e voltado aos interesses do mercado, as escolas foram naturalmente invadidas pelos industrializados e ultraprocessados. A tendência começou nos Estados Unidos e se espalhou mundo afora. Cadeias de fast food e grandes grupos alimentícios tomaram conta das escolas, oferecendo a crianças e jovens, desde o fundamental até a universidade, um cardápio padronizado e nocivo: frituras, refrigerantes, embutidos, doces, tudo empacotado, embalado, morto, longe do que se convencionou chamar de “comida de verdade”.

As cantinas trocaram até mesmo os salgadinhos fritos na hora por pacotes coloridos, cheios de sal, açúcar, químicos e derivados de trigo, soja e milho, geneticamente modificados (que também chamamos de “salgadinhos”). A conveniência e praticidade de abrir um pacote para alimentar crianças invadiu o ambiente escolar de tal forma que crianças que levam lanches mais naturais, como frutas ou sanduíches caseiros, são ridicularizadas e sofrem bullying por serem “diferentes” das demais. Valores completamente invertidos. Sem contar o caos que estamos vivendo nas escolas públicas, com a progressiva entrada de industrializados em detrimento do arroz e feijão. A merenda escolar não é mais a mesma.

Nunca tivemos tantos programas de culinária na TV e internet, mas ao mesmo tempo, nunca cozinhamos tão pouco em casa. Chefs de cozinha viraram celebridades nacionais e mundiais, adoramos vê-los em ação na TV, mas quando se trata de alterarmos nossas rotinas para comermos comida de verdade, sentimos cansaço, esgotamento, preguiça, comodismo. Também pudera: estamos cada vez mais sobrecarregados, especialmente as mulheres, que ainda cumprem jornada dupla (ou tripla) de trabalho. Lembro de um filme comercial de sopa instantânea no qual uma mulher (pelo perfil, solteira, morando sozinha) chega cansada do trabalho, liga a TV e assiste a um programa de culinária enquanto toma uma sopinha industrializada de pacote e zomba do chef, que está picando legumes e mexendo panelas. Tem uma boa sátira desse filme aqui.

No último domingo, tive o prazer de assistir a uma palestra da chef argentina Paola Carosella, no I Aniversário do Maternativa. Paola é daquelas profissionais que, apesar de estar fazendo sucesso no mainstream, mantém valores e objetivos coerentes e conectados com uma alimentação o mais livre possível de ultraprocessados.

Eu prego a conexão com as nossas escolhas, uma maior consciência sobre o que comemos, especialmente quando estamos alimentando nossos filhos. Uma cena comum é quando a criança está vendo TV e a mãe chama para comer. Parece que a comida vem do nada, que caiu do céu. Nessa coisa de cuidar e proteger, a gente afasta os filhos da cozinha, do processo de preparação do alimento. Se a criança ajuda na preparação e corta a pontinha do quiabo, a chance dela comer quiabo é maior. Muitas crianças não sabem que a carne que comem era um animal vivo, com patinhas, parecido com o cachorrinho, com o gatinho. Acredito que saber de onde veio a carne nos faz ter mais respeito pelo que comemos”, provoca Paola, durante o evento, cercada de mães ávidas por implementar uma educação alimentar positiva em casa.

“Uma cena comum é quando a criança está vendo TV e a mãe chama para comer. Parece que a comida vem do nada, que caiu do céu. Nessa coisa de cuidar e proteger, a gente afasta os filhos da cozinha, do processo de preparação do alimento”. Paola Carosella

É preciso dizer claramente que cozinhar é difícil, trabalhoso. Nesses programas de culinária rápida na TV, existe toda uma retaguarda que corta e prepara os ingredientes para o chef cozinhar, dançando, em 15 minutos. Se é difícil cozinhar, a gente procrastina mesmo, quer terceirizar. Uma saída é fazer o melhor possível, começar simples, pequeno, uma vez por semana, depois duas, três, até virar rotina. A gente não precisa preparar pratos lindos, com cara de bichinho. Nossos filhos têm que se conectar com a comida na forma como ela é. O que sempre funcionou pra mim foi cozinhar com minha filha”, ensina Paola.

Trazer as crianças para a cozinha e para uma alimentação natural, especialmente se já estão acostumadas aos ultraprocessados, pode ser um tremendo desafio. Mas, como tudo o que envolve disciplina positiva, o caminho mais suave pode ser através da brincadeira, do exemplo, do engajamento progressivo.

Paola deu algumas pistas: “A criança pode brincar na cozinha, na feira. Se a gente sempre diz “não mexe aí, tira a mão daí”, quando levamos o filho pra feira, não é legal. Mas se a gente pede ao filho para escolher a mandioca e tem paciência para fazer a feira no dobro do tempo, a gente traz a criança pro nosso cotidiano. Lavar a louça, lavar a roupa, passar o pano no chão, podem ser momentos de brincar e também de ensinar responsabilidade. Nessa desconexão em que vivemos, estamos criando seres que não podem fazer nada, que só podem fazer coisas legais “pra crianças”. Isso só nos gera culpa e nos faz gastar grana, porque a gente expulsa os filhos do nosso cotidiano, dos nossos ritmos naturais. As coisas deveriam ser mais simples”. Um bom alento para esse período de férias…

No próximo post, vamos nos aprofundar um pouco mais no “como fazer” para adotar um novo estilo de alimentação para nossas famílias, nossos filhos, nossa comunidade. Vamos tentar encontrar um modelo que não seja perfeito, mas possível.

Para saber mais:

  • O poder e a influência da indústria alimentícia sobre as crianças pode ser visto de forma didática no documentário “Muito Além do Peso”, que retrata as verdadeiras causas da epidemia de obesidade infantil que se espalha rapidamente pelo Brasil.
  • O documentário “Fed Up” aborda o poder da indústria do açúcar, alegando que a epidemia de obesidade vem do consumo excessivo de açúcar/industrializados e não da gordura animal, como se acreditava até os anos 2000. Mostra também as controvérsias envolvendo a pirâmide alimentar.
  • O novo Guia Alimentar para a População Brasileira, muito elogiado no exterior, é uma fonte atualizada de boas informações sobre nutrição. O guia recomenda a eliminação de todos os alimentos ultraprocessados (e explica de forma clara quais são esses alimentos).
  • Video da nutricionista Monica Katz, fundadora do departamento de transtornos alimentares de um hospital argentino, sobre ambiente obesogênico, causas da obesidade, dietas e o nosso fascínio pela confort food.
  • Blog da Paola Carosella.
  • O Maternativa é uma iniciativa inovadora e bem sucedida de empreendedorismo materno, que completou um ano de idade e já tem muitas histórias de sucesso pra contar.
Anúncios