Quando soube da notícia, eu já tinha finalizado o meu penúltimo post da série sobre alimentação e não pude atualiza-lo com a nova bomba: o casamento entre o chef inglês Jamie Oliver, criador do movimento Food Revolution e a gigante Sadia, parceria envolvendo R$ 50 milhões para o lançamento de uma linha de “congelados premium”, com a assinatura do chef.

A primeira impressão é a de que a Sadia encontrou uma forma bem “esperta” de fazer greenwashing, usando a boa imagem de um defensor ferrenho da cozinha caseira e da melhoria na merenda escolar nas escolas britânicas. O que também aparece, logo de cara, entre os embaixadores da alimentação saudável, é a decepção: como um chef com ideias tão progressistas aparentemente dá um passo atrás, firmando uma aliança dessas?

Apesar de pessoalmente não concordar com esse casamento, cujo desfecho ainda não sabemos, fui ler a justificativa dele, até mesmo para ter uma visão mais ampla da situação. O que me levou a uma reflexão bem pessoal: até que ponto podemos e devemos acolher o contraditório em nossas vidas?

Explico melhor: apesar de minhas melhores intenções, especialmente no que diz respeito à educação da minha filha ou à alimentação aqui em casa, nem sempre tudo o que quero fazer, eu faço. Nem sempre faço o que digo, ou o que acredito. Penso que existe muita gente como eu por aí no mundo. E ampliando isso numa escala global, surgem as grandes contradições, como essa do Jamie. E aí, o que fazemos com isso? Como encaramos nossas contradições?

Estando imersos num mundo capitalista, que visa o lucro acima de tudo, dominado pelas grandes corporações, como podemos viver uma vida mais “limpa” e “livre”? E pior: até que ponto somos livres de verdade? Até que ponto nossas escolhas estão livres das influências do “sistema”?

Se eu me fizesse essa mesma pergunta há 20 anos, eu não teria dúvidas. Uma coisa boa da juventude é que não há margem pra dúvida. Tudo é preto no branco. Ou você acredita, ou não. Ou apoia, ou não. Mas quanto mais o tempo passa e quanto mais eu me conheço, mais vejo que não sou perfeita, que cometo erros e que me contradigo, inúmeras vezes. Isso pode ser visto como resignação ou hipocrisia, mas também pode ser visto como maturidade ou aceitação da realidade.

Por outro lado, são as ideias aparentemente “radicais” que operam as verdadeiras mudanças da sociedade. Tem que ter sempre uma meia dúzia de “loucos” desafiando a normalidade. No início, esses loucos são ridicularizados e confrontados pela maioria, mas depois, até mesmo depois da morte, são finalmente compreendidos e levados a sério. A história mostra inúmeros exemplos. E tenho certeza de que não vai ser diferente em relação à alimentação. Muita coisa que hoje parece radicalismo vai ser o novo paradigma alimentar de amanhã. Quem viver, verá.

Nessa corda bamba entre ser fiel aos meus valores e estar inserida num sistema no qual esses valores são constantemente desafiados, vejo que uma saída pode estar na redução de danos: nem sempre faço o que quero, ou o que posso, mas tenho meu norte, meu ideal. Vou tentando, aqui e ali, até que consigo fazer hoje o que ontem parecia impossível. É melhor fazer um pouco, mirando meu ideal, do que não fazer nada, já que fazer tudo, hoje, é impossível.

Semana passada, levei a filha à feira orgânica, seguindo as dicas da chef Paola Carosella (participei de um bate-papo com ela maravilhoso, leia aqui). Foi uma experiência rica. Minha filha, que antes comia de tudo, não anda muito fã de legumes e verduras. Colocar verdes e coloridos no prato dela tem sido um desafio. E ali, no meio da feira, ela tascou dois tomates cereja e enfiou na boca, com gosto. Ninguém forçou, nem sugeriu. Foi ideia dela, que ainda complementou, sorridente: “adoro tomate, mamãe!”… Mesmo tendo ficado impactada pelo fato de ela ter colocado legumes não lavados na boca, deixei transparecer apenas o orgulho por vê-la toda feliz, curtindo um tomate. Mais um aprendizado!

Essa experiência da feira me fez ver que o ideal de perfeição muitas vezes me afasta de mudanças concretas que posso empreender, aqui e agora, para começar a fazer a diferença no mundo. Abarcar o contraditório, em vez de me desencorajar, pelo contrário, me dá forças para perseverar, apesar dos revezes da vida, pois sei que sempre é tempo de (re)começar.

Usando agora as lentes da redução de danos, o que podemos fazer, de real e de possível, no nosso dia a dia, para sermos mais saudáveis em relação ao que comemos e oferecemos para nossos filhos? Como podemos andar, com relativo equilíbrio, nessa corda bamba entre ambiente obesogênico, ideal de saúde, preferencias alimentares e até mesmo convívio social? Tenho algumas ideias aqui, resultado das pesquisas que ando fazendo e gostaria muito de saber das suas também:

  1. Cozinhe mais em casa – Ok, a gente sabe que nem sempre dá pra fazer isso, que às vezes rola um delivery básico, um nuggets e um miojo, mas podemos nos fazer as seguintes perguntas: até que ponto o “de vez em quando” é “regularmente”? Se é uma vez por semana, é de vez em quando? Se é todo dia, o que podemos fazer, dentro da nossa realidade, pra mudar isso? Realmente queremos mudar isso? Nossa família quer mudar isso? Como vai ser a divisão de tarefas em casa para que possamos implementar essa mudança?
  1. Leia os rótulos – Como vamos fazer escolhas conscientes se não sabemos exatamente o que estamos comendo? Bora botar uma lupa (já que os rótulos estão cada vez mais difíceis de ler – será coincidência?) e analisar todas aquelas letrinhas miúdas nas embalagens do macarrão, dos nuggets, dos embutidos, dos biscoitos recheados, dos iogurtes, dos alimentos “diet”, “light” e “fit” que consumimos… Se a maioria dos ingredientes for difícil de entender ou pronunciar, tem algo errado aí. Se entre os três primeiros ingredientes estiver escrito “açúcar” ou algumas palavrinhas complicadas que também significam açúcar, também. Você costuma ler os ingredientes dos alimentos industrializados ou ultraprocessados que consome? Ou confia cegamente no que diz a propaganda no rótulo visível, na prateleira do supermercado?
  1. Prefira comida de verdade – Essa tem tudo a ver com o item 2. Se o que comemos é minimamente processado ou não processado (frutas, verduras, legumes, grãos, carnes bem escolhidas) a chance de sermos “enganados” pelos rótulos é mínima. Apesar de todas as divergências ideológicas sobre o que é alimentação saudável, numa coisa, todos os especialistas, cientistas e ativistas concordam: quanto mais natural, melhor. O que está faltando para que possamos implementar em nossas rotinas uma alimentação com o mínimo possível de ultraprocessados? Como nossas famílias encaram essa questão? Que mudanças podemos fazer agora para atingirmos esse ideal um dia?
  1. Não use comida como prêmio ou consolo – Essa aí, confesso, talvez seja a mudança mais difícil pra mim. Comer está intimamente ligado às emoções, às lembranças da infância, ao afeto. Como podemos ser mais íntimos, mais amorosos e carinhosos, em família e com nossos filhos, sem obrigatoriamente colocar comida no meio? Porque tem sempre que ter comida pra ter afeto? Existem outros jeitos de celebrar, que também sejam memoráveis? E, se chegarmos à conclusão de que sim, celebrar com comida é vital em nossas vidas, como podemos fazer isso da forma mais saudável possível?
  1. Questione a escola, o meio social – Até que ponto estamos questionando o que se passa na escola dos nossos filhos, no que diz respeito à comida que é oferecida? Nós realmente sabemos o que a escola oferece aos nossos filhos? Estamos de acordo com esse cardápio? Já conversamos sobre isso com a direção da escola? E no ambiente social no qual nossos filhos transitam? Como são as celebrações, as festas de aniversário? É possível fazer escolhas mais saudáveis em nossas celebrações? O que é “comida de criança”, afinal? Ter uma infância feliz é obrigatoriamente consumir alimentos ultraprocessados, cheios de açúcar? Que boas lembranças da infância você quer deixar para seu filho? Nosso medo de sermos “chatos” ou “diferentes” está nos impedindo de fazer ou promover as melhores escolhas alimentares para nossos filhos?
  1. A questão dos agrotóxicos – Muita gente se pergunta se, ao optarmos por uma alimentação mais saudável, não iremos gastar muito mais, se optarmos por orgânicos ou até mesmo ingerir grandes quantidades de veneno através das verduras, legumes e frutas “comuns”. De novo, acredito que o raciocínio da redução de danos é perfeito aqui. Nem sempre dá pra consumir orgânicos, mas talvez seja viável comprar uma vez por mês, ou a cada 15 dias. Há quem diga que é possível gastar muito menos com orgânicos e alimentação natural do que com uma compra de mercado comum. Você já fez esse teste?
  1. Acolha o contraditório – De nada adianta levar a ferro e fogo as sugestões acima, se não nos permitirmos o contraditório de vez em quando. De novo, nem sempre faço o que digo. Mas se eu perseverar no que acredito, mesmo errando e recomeçando inúmeras vezes, as chances de chegar lá são maiores!
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