Quando fiquei sabendo que seria mãe de menina, confesso, bateu um medo. Ser mulher ainda não é seguro, nem aqui no Brasil, nem em nenhum lugar do mundo. Cresci aprendendo que, se eu desejasse ficar longe de abusos, eu deveria ser recatada e, principalmente, “parecer” recatada. Mas nós mulheres sabemos que, infelizmente, na prática, o recato não impede uma série de violações. E agora, como fazer com minha filha?

Uma das coisas mais aterrorizantes do abuso contra crianças é a contradição. Um adulto em quem você confia (e geralmente, adora) faz algo estranho, proibido, íntimo, secreto, violento. Mas o discurso ainda é de amor, de cumplicidade, de amizade, de “brincadeira”, na maioria das vezes. Essa dicotomia entre a ação violenta e o discurso de carinho deixa a cabeça da criança muito confusa. E acredito que essa maneira de agir (dizendo uma coisa e fazendo outra) não está somente na cabeça do abusador, mas de toda sociedade, até hoje. Um exemplo bem corriqueiro, mas não menos importante, é a “obrigatoriedade” da criança em ser afetuosa com adultos, sejam conhecidos ou estranhos. Outro exemplo é a naturalização dos castigos físicos, mesmo num momento em que são considerados crime no Brasil.

Nunca tinha parado para pensar no absurdo disso, até ter filhos. Espera-se que as crianças (especialmente as meninas) sejam sempre afetuosas, carinhosas e estejam dispostas a iniciar ou retribuir manifestações de carinho vindas dos adultos. Uma menina que evita aproximações é vista como “mal educada”, “tímida”, “mal humorada”, “brava”. Espera-se que o adulto tenha sempre livre acesso ao corpo da criança, para beijar, abraçar, cheirar, fazer carinho… Afinal, estamos falando de daquela fofura que atrai atenções e olhares. Nada mais natural que querer beijar e abraçar, sempre que der vontade, certo? Errado.

Espera-se que o adulto tenha sempre livre acesso ao corpo da criança, para beijar, abraçar, cheirar, fazer carinho… Nada mais natural que querer beijar e abraçar, sempre que der vontade, certo? Errado.

Minha filha, desde que nasceu, vem me ensinando, na prática, uma série de coisas. E algo que admiro muito nela, apesar de sua natural inocência, é a capacidade de impor limites que eu não consegui, “na minha época”. Quando ela não tem vontade, nem mesmo eu e o pai conseguimos tocá-la. Ela se esquiva, seja com o corpo ou com o olhar. Deixa bem claro que não quer carinho naquele momento. Já passei por várias situações “constrangedoras”, envolvendo adultos que interpretaram de forma distorcida essa recusa dela. Muita gente ainda considera um insulto ter uma manifestação de carinho repelida por uma criança. Não tenho o controle sobre a vida da minha filha, não posso prever o futuro, mas louvo a capacidade dela, no presente, de exercitar uma autenticidade que eu desconheci.

Como querer proteger nossas meninas se o tempo todo elas são ensinadas a beijar, abraçar, sentar no colo e aceitar toques de adultos, mesmo quando não têm vontade? Como querer que elas sejam fortes, que se defendam, que escapem, que se protejam, se dizemos a elas que “menina ‘bonita’ é menina comportada, afetuosa, carinhosa, cordata, feminina, compreensiva, mansa?”… Como uma menina mansa vai se defender de um abusador, como vai ter a coragem de desafiar um status quo familiar, social, escolar ou profissional? Uma menina “boazinha”, se for preciso, vai fazer escândalo e defender sua integridade a todo custo? Ou vai (como acontece, na maioria das vezes) se calar e pensar que a culpa foi dela, porque afinal, ela estava com aquela roupa, naquele lugar, com aquela pessoa, etc…

Como querer proteger nossas meninas se os meninos são ensinados, desde cedo, “a partir pra cima” delas? São encorajados a “roubar um beijo”, a “passar a mão” ou a “fazer um carinho de surpresa”… E quando o fazem, recebem sorrisos de aprovação, rola um alívio do tipo “meu filho é macho mesmo”. Dessa forma eles vão, desde cedo, acreditando que o desejo deles deve sempre se sobrepor à vontade da mulher. Que “ser homem” é sempre agir conforme o desejo, pouco importa se a menina não emite nenhum sinal recíproco. Esse masculino distorcido vai criando um terreno fértil para todo tipo de abuso e machismo que ainda conhecemos tão bem, em pleno século XXI.

E onde ficam os “bons modos“, alguns poderão se perguntar? Acredito que, antes de ensinarmos “bons modos”, é preciso ensinar algo fundamental: o respeito. Como querer que uma criança respeite seu entorno se ela não é respeitada em seus direitos mais básicos, independentemente do sexo? Precisamos repensar nossas maneiras de demonstrar afeto pelas nossas crianças.

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