Em busca de uma educação mais conectada a valores mais humanos, que respeite minimamente a individualidade da minha filha, surgem as perguntas: O que é aprender? Como é que a gente aprende? Como podemos saber com certeza que aprendemos algo na vida? Será que existe apenas uma maneira de aprender?

Estamos migrando lentamente da competição para a colaboração. Com a crise brasileira e mundial, novas formas de trabalho e organização empresarial estão surgindo. O empreendedorismo e o cooperativismo chegam não só como uma alternativa à crise e ao “pleno emprego”, mas sim como os caminhos possíveis daqui pra frente. Seremos cada vez mais empreendedores de nós mesmos, de nossos valores, ideias, resultados. Estaremos cada vez mais livres da tutela estatal e empresarial, no sentido de que seremos cada vez mais responsáveis por nossa evolução pessoal e profissional.
Essa constatação tem pelo menos duas maneiras de ser encarada: a primeira é que, com a aguardada e arquitetada flexibilização das leis trabalhistas, teremos uma perda imensa de direitos históricos duramente conquistados. Ninguém será poupado. Não sabemos ao certo se as empresas vão contratar mais ou pagar melhor porque estão economizando na folha de pagamento. Os mais céticos não acreditam nisso, pensam que essa economia apenas servirá para aumentar os ganhos dos acionistas e manter as empresas sobrevivendo a médio prazo, com pouquíssimo impacto na geração de empregos. Quem está pagando a conta dessa crise, pra variar, são os trabalhadores.

A segunda maneira de encararmos a situação é pela inevitabilidade da coisa. Já está acontecendo. Trata-se de um movimento global. O sistema formal de trabalho está morrendo. Não sabemos ainda se a revolução será restrita apenas ao trabalho intelectual ou se migrará também para todo tipo de trabalho físico, braçal, com o crescente avanço da tecnologia. De qualquer forma, os conceitos de trabalho, sucesso, segurança, prosperidade, evolução profissional e pessoal daqui pra frente serão muito diferentes do que aprendemos na nossa geração e nas gerações dos nossos pais e avós.

Nesse cenário incerto, em plena mutação, como podemos garantir um aprendizado minimamente inclusivo para nossos filhos? As escolas de hoje alegam que estão usando novas tecnologias em sala de aula, mas estão preparando alunos para um sistema já obsoleto, ensinando conteúdos e atitudes que não sobreviverão nos próximos anos. A questão não é o tablet usado em sala de aula, nem o conteúdo, que passou do quadro negro para o tablet. A questão é: esse conteúdo ainda importa?

Durante muito tempo, fizemos uma separação entre escola e família: a escola ensina os conteúdos necessários para que nossos filhos decorem, se destaquem em provas e exames e consigam um lugar ao sol no mercado de trabalho. A família ensina os valores morais, o comportamento, a cidadania. Hoje essas fronteiras estão borradas e na verdade, sem uma parceria efetiva entre família e escola, dificilmente daremos conta dessa missão tão árdua de formação de seres humanos.

Numa época em que a capacidade de processamento dos nossos computadores dobra a cada 18 meses, como podemos garantir que nossos filhos saberão o necessário? Talvez agora seja mais importante saber o que priorizar, o que deixar de lado, o que valorizar, já que a sobrecarga de informação é cada vez mais pesada.

E como priorizar, se não sabemos ou não vivemos de acordo com nossos valores? Sim, nossos valores ditam o que devemos e podemos aprender. Somos seres limitados vivendo num mundo de infinitas possibilidades e para não nos perdermos nesse mar revolto, precisamos saber para onde estamos indo. Sem valores definidos, sem coerência de pensamento e ação, não iremos muito longe, nem teremos condições de guiar nossos filhos nessa primeira parte da jornada.

Dizem os mestres espirituais que, se uma lição não for aprendida, ela retorna novamente na vida do aprendiz, para que seja finalmente assimilada. Às vezes simplesmente não estamos prontos para aprender determinada coisa. Às vezes, não queremos, não nos interessamos, nem vemos aplicação prática para determinado conteúdo. Se sabemos quem somos, onde queremos chegar e que tipo de vida queremos viver, podemos descartar, com mais tranquilidade, tudo aquilo que não se encaixa nesses valores. Não precisamos mais sermos reféns de uma única maneira de ver o mundo ou de aprender. Podemos nos reinventar a todo o instante. E aprender a buscar o conhecimento necessário para dar suporte a essa nova versão de nós mesmos.

Na missão de encontrarmos nosso próprio caminho (e de deixarmos que nossos filhos também encontrem o caminho deles) podemos deixar que o tempo e a maturidade se encarreguem de nos mostrar os fatos da vida. E nossa capacidade de nos adaptarmos à essa vida, que em parte construímos, vai determinar se a lição foi aprendida – ou se vai retornar no futuro.

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