Pensava que não era muito boa nessa “arte de fazer amigos” e que não dominava as manhas e os códigos. Mas a qualidade e quantidade de pessoas que tomaram conta da minha vida, depois que engravidei, me provou o contrário. Tenho atraído gente muito bacana, que tem me ensinado muitíssimo sobre doação, confiança, generosidade, coragem, bom humor.

O Papa andou dizendo nas redes sociais que o mundo precisa de amizade, até pra que a raça humana possa sobreviver. Apesar de ex-católica não praticante, curto muito o Francisco, ele está coberto de razão! Com os amigos, aprendemos a nos enxergar e perceber como funcionamos socialmente. Numa época em que as famílias estão cada vez mais reduzidas, com violência crescente e vida urbana limitante, vejo como extremamente importante a convivência com outras crianças. É nessa convivência, nem sempre harmoniosa, que vamos aprender a dar valor ao grupo, ao coletivo, a algo maior que nós mesmos.

Durante muito tempo, criei fantasias e expectativas irreais sobre amizade. Pensava um pouco com a cabeça romântica e midiática dos relacionamentos amorosos: pra entrar na minha lista tem que combinar em tudo, tem que ser “sob medida”. E, claro, me frustrei muito, nessa busca pelo melhor amigo, ou amiga. Ainda bem que a maturidade veio me ensinar que ninguém pode ser tudo para alguém. Nem no amor, nem como amigo. E tudo ótimo assim, porque fica mais leve, sem grandes cobranças ou expectativas. Cada um dá o que tem, o que pode, o que consegue. E isso abre espaço pro mistério indecifrável do gostar, da troca, da confiança.

Essa leveza tem me mostrado que posso ser do jeito que sou e tudo bem, pois aí finalmente posso aceitar o outro como ele é. Vou aproveitando o que o outro tem de melhor pra oferecer e trocando experiências. Posso ter uma melhor amiga pra falar de filho, outra pra falar de trabalho, outra pra falar de filmes e livros, outra pra falar de sexo, outra pra dar risada junto, outra pra chorar junto, outra pra me dizer umas verdades, outra pra me ouvir sem dizer nada, outra pra falar amenidades, outra pra ir nas profundezas do coração, outra pra lembrar os velhos tempos, outra pra trocar dicas de dona de casa, outra pra saber as novidades, outra pra abraçar apertado, outra pra tudo isso e mais um pouco, outra pra só olhar nos olhos e dizer, sem palavras: “estou aqui”.

Uma das coisas mais bonitas que tenho vivido é a participação em diversos grupos de mulheres, seja pelas redes sociais, seja por encontros presenciais, partilhando interesses em comum. Tenho percebido como o meu feminino se alimenta dessa liga extraordinária de mulheres, como tem operado milagres na minha vida, desde que soube que carregava uma outra mulher no ventre. E hoje, ao vê-la construindo e curtindo suas próprias amizades, do alto de seus quase três anos, me dá uma alegria, uma confiança na vida, em que ela vai encontrar companheirismo e irmandade, enquanto conseguir manter o coração aberto pra isso. E é muito bom saber que sempre há tempo de ter coragem e me abrir pro amor profundo que a amizade ensina. E aí, meu próprio coração segue feliz, quentinho e grato.

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