Criança aprendendo a andar: muitos tombos, pezinhos desajeitados, tropeços… Mas cercada de amor e incentivo, ela vai em frente. Cai e levanta quantas vezes forem necessárias. Se não encontrar barreiras, essa correnteza linda vai ficando cada vez mais forte, impulsionando novas conquistas.

Aí infelizmente começa um processo que já atingiu a maioria de nós. Algum adulto resolve um belo dia domar essa correnteza, construir barragens, concretar as margens do rio. Tudo em nome de educar, de “preparar para a vida”.

Cria-se uma ilusão de que a criança é folha em branco, que deve ser preenchida, recortada e moldada pelo adulto, que sempre sabe o que é melhor pra ela. As expectativas começam a tomar forma: é preciso direcionar a criança pra seguir o caminho que achamos correto. Para isso, usamos elogios, críticas, manipulações diversas e, se preciso, até violência verbal ou física.

Na maioria das vezes, sabemos que aquele serzinho é dependente da gente, que nos admira e principalmente, nos imita em tudo. Percebemos que nossos filhos pequenos querem nos agradar a todo custo, que se retirarmos temporariamente o nosso amor, nosso sorriso, nossa atenção e nosso olhar, conseguiremos fazer com que ela faça e seja  o que quisermos, na maioria das vezes. Sentimos que temos um poder inédito sobre a vida de alguém. Conscientes ou não desse poder, podemos cometer toda sorte de abusos.

Claro que essa manipulação não é sempre intencional, premeditada. É um modo de agir que vem de longe, aprendido com nossos pais, avós, ancestrais, na roda de amigos, no ambiente de trabalho. Lembro de um colega cuja mãe repetia, em tom de brincadeira: “Fulano, fica quieto pra gente poder gostar de você!“.

Aprendemos e passamos adiante, de forma automática, o poder da vergonha: uma das maneiras mais insidiosas e eficazes de se controlar alguém, especialmente alguém menor e mais fraco. Vamos botar o dedo na ferida, criticar, expor, ridicularizar, menosprezar, comparar com outras crianças, de preferência em público. Vamos apontar o que está errado, o que não foi feito e economizar nos elogios. Tudo isso porque nos fizeram acreditar, desde o pecado original, que a vergonha pode mudar o ser humano, trazer arrependimento e mudança de atitude. Em pleno 2016, muitos pais e mães ainda usam esse recurso, agora com requintes de crueldade da internet.

O que tenho percebido, na pratica do trato comigo mesma, em busca de ter uma vida melhor e alcançar meus objetivos, é que a vergonha funciona mesmo – a curtíssimo prazo. A médio e longo prazo, a vergonha age como um cavalo de Tróia emocional: invade e detona nossa auto-estima, nossa capacidade de auto-motivação e nossa alegria e confiança na vida.

A raiva e o constrangimento que a vergonha provocam podem servir para dar a partida, mas dificilmente duram ate o final da jornada. Quando aparecem as dificuldades, os tropeços, os obstáculos, vence quem consegue rapidinho sacudir a poeira e seguir em frente. E normalmente os envergonhados demoram mais a se levantar, ou desistem.

Uma auto-estima fraca não leva ninguém muito longe, principalmente na arena do “mundo cruel”. Engraçado porque, quanto mais cruéis somos conosco e com aqueles a quem amamos, menos força temos para vencer as dificuldades e crueldades da vida la fora.

Estou tentando tratar a mim mesma como trataria um bebê dando os primeiros passos. Igual eu fiz com minha filha, devo agora fazer comigo mesma. Até pra poder seguir educando com amor, sem vergonha de nada.

Meu coração deve ficar muito mais atento ao passo dado do que ao tombo eventual. Deve vibrar com alegria a cada centímetro conquistado, em vez de só enxergar os metros que ainda faltam. Deve dar menos atenção à imperfeição da passada e colocar foco total no olhar e no sorriso do bebê que descobre o mundo.

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