Tenho percebido que está surgindo no horizonte um novo feminino, uma nova maneira de ser mulher e isso, pra mim, está totalmente ligado às redes sociais, é um reflexo do que já está acontecendo nas ruas. Os que ainda pensam que as redes sociais são apenas mais uma forma de histeria coletiva, desconectada da realidade, podem se surpreender tomando um belo caldo do tsunami que está por vir.

Não pretendo ensinar a ninguém o que é feminismo (até porque ainda estou aprendendo e estudando sobre isso). Quero falar sobre o meu entendimento desse novo feminino, baseando-me somente em minhas vivências e observações, tanto no mundo real, quanto no virtual. Na maioria das vezes, tenho ficado feliz e esperançosa com o que tenho visto.

Por que falar de feminino e feminismo num blog sobre educação infantil? Porque é na escola que aprendemos os primeiros rudimentos daquela tão manjada divisão entre meninos e meninas. É na infância que começa o discurso: “isso é de menina” e “isso é de menino”. E é aí também que as meninas começam a sentir a pressão social e a manifestar as primeiras reações ao que o nosso sistema social, político e econômico espera das mulheres.

Desde que nascemos, existe um conceito preestabelecido do que é ser mulher, um padrão de conduta e de imagem que deve ser seguido sem questionamentos. O que o movimento feminista faz, a meu ver, é combater essa conduta imposta. Claro que somos diferentes dos homens, por fatores inegáveis. Nós geramos vidas, temos constituições físicas diferentes, até mesmo, para alguns, modos de pensar e sentir diferentes. Mas é muito fácil usar o determinismo biológico para justificar a opressão milenar masculina sobre as mulheres. E isso é o que vem sendo feito até hoje, pelos críticos do feminismo, de forma ingênua ou consciente.

Quando na redação do ENEM de 2015, muitos se indignaram com a frase de Simone de Beauvoir, acredito que a maioria não entendeu o que a filósofa quis dizer. Quando ela diz que “ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher”, na minha interpretação, significa que uma mulher só poderá ser reconhecida e respeitada ao longo de sua vida se estiver em conformidade com os padrões estabelecidos do que é “ser feminina”. Existem ainda hoje, pesando sobre todas as mulheres, maneiras “certas” de se falar com os homens, de se vestir, de andar, de emitir opiniões, de se apresentar esteticamente, de comer, de cuidar da saúde, de ser mãe, de ser profissional, de ser atraente, de viver a sexualidade… exemplos de condutas impostas não faltam.

O maior valor que uma mulher possui, ainda hoje, é sua beleza, ditada, principalmente, por fatores culturais e sociais. E o conceito de beleza, embora tenha mudado muito ao longo dos séculos, ainda é algo inatingível para a maioria das mortais. Esse conceito serve ao propósito de incentivar o consumo desenfreado de roupas, acessórios, tratamentos estéticos, dietas, medicamentos, terapias, revistas e livros, músicas, filmes e novelas, tudo em nome de sermos cada vez mais atraentes, para que possamos merecer um homem, pois o valor de uma mulher, infelizmente, ainda é medido pela sua capacidade (inata ou adquirida) de atrair e manter um homem ao seu lado. E as mulheres que têm consciência de seu poder, manifestado através da beleza padronizada e/ou da atração sexual, são punidas por exercê-lo sem pudores. Ser “bela, recatada e do lar” ainda é um mandamento. Ao desobedecê-lo, a mulher “merece” toda forma de crítica, violência e punição.

Já ouvi da boca de muitas mulheres que “as feministas são feias, desinteressantes, raivosas e histéricas”, justamente porque, entre as militantes do movimento, não se encontram mulheres que aderiram automaticamente e passivamente aos padrões impostos. A maior conquista do feminismo, a meu ver, é termos hoje a liberdade total de escolher quem queremos ser e como queremos nos apresentar ao mundo. Mesmo enfrentando críticas pesadas, podemos escolher como queremos viver através dos nossos corpos e da nossa maneira de nos expressar, seja da forma mais “feminina” possível (seguindo os padrões tradicionais) ou simplesmente rompendo com esses padrões, sem culpa. Não buscamos mais a aprovação dos homens como balizador do nosso sucesso ou felicidade.

Esse novo feminino é ao mesmo tempo um resgate ancestral (com o movimento a favor do parto humanizado, por exemplo, no qual as mulheres redescobriram sua força animal de gestar e parir, com os grupos de mulheres que se reúnem para falar a real sobre maternidade e sexualidade) e contemporâneo (com os grupos virtuais e reais de mulheres negras, por exemplo, assumindo seus cabelos crespos e abandonando os tratamentos químicos e de mulheres gordas, buscando inserção na moda e na sociedade com o movimento plus size, entre outros).

A descoberta da própria beleza e vaidade, a aceitação do próprio corpo, o resgate da auto-estima, a redescoberta da própria sexualidade e do que nos dá prazer genuíno e a defesa irrestrita da dignidade (através das denúncias cada vez mais frequentes de violência contra a mulher) têm sido o motor dessa onda gigantesca, que cresce e inunda não só as redes sociais, como também os espaços públicos, a vida real.

O mercado tem percebido essa onda e já tem sinalizado uma mudança de rumo, criando produtos e serviços para essas “novas mulheres”. A vanguarda agora não é mais impor modelos e padrões e sim descobrir o que o mercado (elas) deseja(m). As “mulheres empoderadas” não aceitam mais usar, vestir e ostentar produtos e serviços que desconsiderem suas particularidades. Não querem mais consumir apenas para serem aceitas, ou para serem atraentes dentro de um padrão massacrante. Querem buscar produtos e serviços que realcem e celebrem suas diferenças, como uma forma de auto-afirmação social. Larga na frente aquele que souber “ler” essa necessidade cada vez maior de autenticidade, de encontrar o próprio estilo e maneira de viver.

Estamos no momento exato de ruptura com o significado imposto de “ser mulher”. O modelo antigo ainda é mais forte, mas é uma questão de tempo para desmoronar. Vamos assistir às próprias mulheres escolherem, a partir de agora, o que e como desejam ser e se comportar, nesta e nas próximas gerações.

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