Resolvi continuar falando do feminino, do “ser mulher”, pois esse assunto é extenso, complexo e fascinante. Depois de escrever o post anterior, percebi que, além de estarmos vivendo uma época que promove novas maneiras de ser mulher, estamos também resgatando uma essência feminina, perdida ou sufocada durante milênios de patriarcado.

Esse resgate nada tem a ver com seguir uma imagem de mulher contemporânea idealizada e promovida pela mídia, mas também nada tem a ver com seguir sem questionamento os velhos modelos do “ser mulher” ensinados pelos nossos antepassados. Na verdade, tem a ver com buscar dentro de nós nosso arquétipo feminino, que se manifesta, para cada uma, de forma diferente.

Comecei a entrar em contato com essa necessidade de resgate do feminino lendo o maravilhoso livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, da escritora Clarissa Pinkola Estes. Esse é um daqueles livros de cabeceira, que me acompanham há anos, que podem ficar anos sem serem lidos, mas quando são abertos, trazem sempre um sopro novo de insights e conhecimentos.

Um homem talvez jamais entenda o que a autora disseca com tanta sensibilidade e intensidade: existe algo na alma feminina que remete à essa figura da mulher selvagem, que clama por realização íntima. Esse chamado, segundo a autora, seria o catalisador de todas as realizações femininas no mundo exterior.

Uma mulher que se sente presa, tolhida, murcha, envelhecida, desencorajada, sem libido, sem criatividade, sem fogo interior, sem conseguir trazer para o mundo concreto seus sonhos e anseios, segundo ela, ainda assim pode fazer uma transformação profunda, sair do deserto e voltar a ver a luz, mas precisa encarar primeiro os seus predadores internos e externos com destemor.

O predador interno, segundo a autora, é um arquétipo limitador da criatividade, poder e energia femininos. Pode se manifestar numa relação falida ou abusiva, num trabalho sem sentido, numa situação aparentemente sem saída, numa doença grave, numa criação repressora, numa barreira psíquica, enfim, se manifesta em impedimentos externos ou internos, que nada mais são do que projeções do inimigo interno.

No livro, uma figura representa todos esses predadores, ela nos visita na forma de um homem mal e sinistro, em sonhos. Esse homem, que no conto do livro é o Barba Azul, no sonho de toda mulher adulta pode ter mil significados, mas representa aquilo que deve ser encarado de frente, por pior ou mais assustador que seja.

Na história, a esposa do Barba Azul, recém casada, desobedece as ordens dele e abre, com uma pequena chave, a única porta do castelo que não foi autorizada a abrir, movida por sua curiosidade inata. No fundo ela sabia com quem tinha se casado, mas se negava a enxergar. Ela descobre que, atrás daquela porta, estão todos os cadáveres das esposas anteriores, que ousaram desobedecê-lo.

E é a partir daí que começa na história o processo de resgate da essência feminina, de validação da intuição. O Barba Azul volta de viagem, vê que a chave não pára de sangrar, denunciando a desobediência da esposa e resolve matá-la também. O que a primeira vista parece aterrorizante, é o início do processo de libertação, pois somente aí ela se dá conta da realidade e pode tomar providências a respeito, para se salvar.

Algumas mulheres precisam viver essa sensação de perigo extrema para se libertarem de prisões internas e externas. Outras não precisam de tanto, mas todas, segundo Clarissa, vivem essa ruptura, mais cedo ou mais tarde. Muitas de nós passamos a vida toda sufocando nossa intuição, nossos talentos, nossa força, nossa coragem, nossa criatividade, em nome de seguir padrões impostos, para não comprar brigas, para evitar conflitos, para fugir da rejeição, da solidão, da sensação de fracasso, da constatação de que somos “diferentes”.

Lembro que, na véspera da morte da minha avó, eu tive um sonho aterrorizante com meu predador interno, bem como descreveu Clarissa no livro. Ele veio me avisar que eu estava finalmente entrando em contato com o meu lado mais sombrio, com os “cadáveres” que deixei pra trás (oportunidades perdidas, coragem, criatividade, prazer, energia feminina em estado bruto, etc). Segundo o livro, esse encontro é um rito de passagem para uma espécie de renascimento.

A partir desse sonho, comecei a perceber um sentido em coisas aparentemente desconexas, fatos, pessoas e situações que tem aparecido na minha vida, nesses últimos meses. Me percebo cercada de mulheres como nunca estive em toda a minha vida. Eu sempre fiz mais amizades com mulheres do que com homens e vejo que o feminino anda me rondando, desde que engravidei de uma menina. Eu esperava e sonhava com um menino, mas veio uma menina e hoje eu posso entender o porquê. Há muito o que resgatar do feminino na minha história. Minha gravidez e meu parto começaram a mudar isso. E ultimamente, meu contato com a dança e os trabalhos manuais tem sido uma forma poderosa de acessar esse feminino ancestral.

Ainda sinto a presença do predador em algumas situações da vida. Sinto que preciso de um Poder Maior que eu pra sair do lugar. Mas já consigo sentir esse Poder se movendo de formas que eu jamais poderia imaginar. E o que me vem agora é uma profunda gratidão por perceber esse mover.

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