Quando optamos por pedagogias ditas “alternativas”, pode surgir o medo: será que não estamos criando nossos filhos numa bolha, que os deixará despreparados para a vida de verdade? Vou mostrar aqui 7 mitos que envolvem ex-alunos Waldorf, na expectativa de esclarecer pais e mães que pensam em escolarizar os filhos nessa pedagogia. Este é o quarto post de uma série sobre o “mundo Waldorf” e uma questão recorrente que aparece nas conversas de pais, mães e educadores curiosos, interessados ou praticantes.

Com o objetivo de testar esses mitos, cuja origem, a meu ver, está no “sistema de produção” no qual se transformou a educação, a cientista social Wanda Ribeiro elaborou uma pesquisa, em 2006, com ex-alunos da Escola Waldorf Rudolf Steiner (EWRS), em São Paulo. Mais de 100 ex-alunos foram submetidos a entrevistas guiadas por um questionário de 35 perguntas, com respostas livres. Wanda realizou uma segunda versão da pesquisa, em 2016, com 40 ex-alunos, que chegou a conclusões semelhantes. Segundo ela, ainda existe muito preconceito em relação à pedagogia, especialmente em relação ao elemento artístico, que permeia toda a vida escolar do aluno Waldorf:

Como mãe Waldorf, como foi sua adaptação à pedagogia? Quais os seus maiores temores e dúvidas? O que mais te impressionou?
WR – Como eu já tinha decidido que eu não queria que minha filha continuasse a ter aqueles conteúdos que a escola convencional, digamos assim, estava passando, eu fui para a Waldorf disposta a aprender a ver a educação de outra maneira. Mesmo assim, no começo a gente estranha o ambiente diferente, tão belo, tão próximo à natureza, algo que até parece uma comunidade fora da realidade, mas é exatamente o contrário: ela nos traz de volta ao que somos: seres humanos que estamos junto à natureza. O que mais me impactou foi essa proposta ao mesmo tempo singela e real, pois mostra que a evolução que a humanidade fez é uma coisa bela, que não se descarta o passado, mas o compreende e isso nos proporciona ou pode proporcionar um futuro mais seguro, melhor. Quando nos compreendemos. Isso é o que nos abre para novos horizontes, e não apenas teorias “críticas”. Há a crítica saudável, construtiva, mas isso só se faz pelo aprendizado do que o mudo oferece também de belo.

Você acredita que ainda hoje haja muito preconceito em relação à pedagogia? De que forma isso pode ser combatido?
WR – Sim, acredito que ainda exista muito “pré-conceito”. É como eu procurei transmitir em minha pesquisa, apoiada no estudo do sociólogo Robert Nisbet, que no ensaio “Sociologia como uma forma de arte” procura mostrar como nasceu o “mito” que separou a arte da ciência. Ele diz que  a partir de movimentos sociais gerados pela Revolução Francesa e devido aos processos de divisão de trabalho que a Revolução Industrial trouxe, surgiu ali a tendência a acreditar que o artista e o cientista são seres antagônicos e têm preocupações opostas.  Antes, tanto na Renascença como no Iluminismo não havia essa separação. Nisbet cita como exemplos Leonardo da Vinci, na Renascença, e Goethe, no Iluminismo. No século XIX a arte foi adquirindo o “mito” de se expressar pela “rejeição do mundo” e a ciência sucumbia ao mito inverso, ou seja, o de ser a “expressão do mundo”. Resumindo, Nisbet quer mostrar que tanto o artista como o cientista querem compreender o mundo. E Rudolf Steiner, fundador da Pedagogia Waldorf, também aborda essa questão, mas deixa claro que para as crianças, o melhor modo de ensinar a compreender o mundo é pela arte, pois só mais tarde ela poderá optar se quer ser um cientista. Ele afirma que para as crianças e adolescentes, só é possível compreender o mundo através da arte. E eu tive essa experiência em minha vida, tanto na minha formação como na trajetória de minha filha. Esse preconceito pode ser superado mostrando resultados “concretos” através de pesquisas como a que fizemos e outras que também mostram por outros prismas. Isso na minha opinião, pois esse é o propósito da nossa pesquisa.

Você também acha que dizer que uma escola Waldorf “só forma artistas” é um dos maiores mitos envolvendo os ex-alunos?
WR – A arte na Pedagogia Waldorf é o alicerce de toda sua proposta pedagógica. E é importante que entendamos o alcance que a arte tem. Ela não é apenas algo estético e belo, não é apenas algo “extra-curricular”. É ela que traz a vontade de fazer algo, algo através de suas próprias capacidades, de despertar em você aquilo que você é capaz de produzir, de olhar um objeto, que na “vida real” pode ser qualquer tipo de problema sob vários pontos de vista, buscar soluções, pois às vezes o que você está tentando fazer não sai como você planejou. Enfim, ela traz auto-conhecimento, vontade, olhar “crítico construtivo”.
Acredito que seja o principal mito, justamente porque aprendemos a ver o mundo com aquele mito que eu citei anteriormente, trazido por Robert Nisbet: que a arte seria uma “rejeição do mundo”, um “viver fora da realidade”. E é justamente o contrário. Steiner mostra isso e o resultado de nossa pesquisa torna isso “visível” em números.

Quais foram suas maiores impressões sobre a pesquisa? Você faria algo diferente? Essa pesquisa poderia ser ampliada para outras escolas e pedagogias “alternativas”?
WR – Minhas maiores impressões foram realmente ver esse poder da arte como educadora. Para mim foi uma surpresa a cada resposta que eu obtinha. Eu mesma fui  descobrindo aos poucos tudo isso e foi muito, muito revelador, muito gratificante. O que eu gostaria de fazer a mais é ampliar para outras escolas Waldorf e fazer uma comparação, algo que amplie isso, mas de modo a tornar claro essa formação humanística que dá forças internas as quais eu pude reconhecer nesses alunos, incluindo minha filha. Uns mais, outros menos, uns em vários aspectos, outros em alguns. Não é o remédio para todos os males, porque há o componente principal, que ela mesma respeita: a individualidade. Mas é uma formação na qual eu realmente acredito e desejo compartilhar. Eu gosto de conhecer outras alternativas, mas por enquanto estou me aprofundando e ampliando os estudos nos vários aspectos da formação humanística que a Waldorf atinge.

SAIBA MAIS:

Resumo da pesquisa sobre os 7 Mitos: veja o video no Canal Alternativas das Educação, no Youtube.

A pesquisa pode ser acessada na íntegra (versão 2006) no The European Council for Steiner Waldorf Education ou entrando em contato com a Wanda: wandar@uol.com.br.

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