Depois do último post sobre os 7 mitos do ex-aluno Waldorf, percebi que mais uma questão paira sobre os pais e mães na hora de optar por esse tipo de escola: será que é pra mim? Será que é pro meu filho? Como saber se vou fazer a melhor escolha?

Pergunto “se é pra mim”, porque tenho aprendido, nas minhas pesquisas e vivências, que colocar um filho numa escola Waldorf acaba afetando não só a criança, mas toda a dinâmica familiar, já que esse tipo de pedagogia exige dos pais e cuidadores uma maior participação, se compararmos às escolas tradicionais. E ainda assim, me pergunto: ok, concordo em muita coisa, quero me envolver, já fui esclarecida sobre os maiores mitos, mas será que seremos felizes nessa pedagogia?

Para tentar responder a essas dúvidas, conversei com o Leonardo Maia, criador do site Biblioteca Virtual da Antroposofia, uma ferramenta de apoio para professores Waldorf. A página da Biblioteca no Facebook tem quase três anos de vida e já conta com mais de 100 mil seguidores. É referência de pesquisa, tanto no meio docente, quanto entre pais e curiosos. “Eu fiz o curso de pedagogia e percebi que a nova geração está muito insatisfeita com as pedagogias tradicionais. A pedagogia Waldorf é muito complexa e demanda muito material de estudo. Fiz o site em função disso, para facilitar o acesso a esses conteúdos”.

Leonardo cria os dois filhos na pedagogia e apresenta uma visão pessoal de como podemos saber se essa é a escola ideal para nossos filhos. Segundo ele, alguns fatores devem ser levados em conta no processo de procurar e optar por uma escola Waldorf:

Ideologia

O fator mais importante a ser considerado, segundo Maia, é a compatibilidade de valores entre família e escola. “A escola Waldorf tem uma linha própria filosófica e ideológica, que em certos aspectos pode divergir da ideologia dos pais. Dependendo da quantidade de aspectos divergentes, isso pode fazer mal, para acriança, para os pais e até para a escola. É importante considerar se há embate ideológico. E se estamos dispostos a acompanhar esse processo, pois é uma escola que exige muito dos pais. É importante que os pais se esforcem junto com a escola a ajudar a criança a se desenvolver. Será que você não vai querer cobrar que a escola dê os conteúdos de certa forma porque você está preocupado com o fato do seu filho não aprender a ler e a escrever com sete anos ou passar no vestibular? A ideia não é tentar convencer todo muito a colocar na escola Waldorf, é uma questão de escolha. E essa escolha sempre tem que vir dos pais, que são os guardiões da infância dessas crianças”.

Espiritualidade

“A Antroposofia é uma ciência espiritual muito complexa, que lida com alguns assuntos controversos, mas tudo deve ser feito na escola Waldorf de forma a não criar aspectos de doutrinação religiosa. Algumas pessoas sentem que existe uma doutrinação, mas isso acontece por inexperiência do professor, não por falha da Antroposofia. Ser professor Waldorf é muito difícil. Além do conhecimento exigido, tem que ter um auto-conhecimento muito profundo. O professor pode deslizar várias vezes, em vários contextos, inclusive nesse da doutrinação”.

Elitismo

Uma pesquisa nas discussões da página da Biblioteca no Facebook vai mostrar um assunto recorrente: o elitismo das escolas Waldorf, que remete também ao elitismo de escolas que propõem pedagogias e metodologias “alternativas”. “Essa questão tem um fundamento de verdade: é uma escola cara, principalmente porque geralmente são iniciativas associativas de pais e professores, sem nenhum apoio governamental”, admite Leonardo. “Na verdade, a gente precisaria dar uma tranquilidade financeira pro professor, para que ele pudesse se dedicar exclusivamente ao trabalho pedagógico intenso que a pedagogia Waldorf exige, sem segundos empregos para complementar renda e etc.. O professor não deveria entrar em sala de aula com dificuldades em pagar aluguel, comprar comida para a família, pois a tranquilidade ou dificuldade permeia seu trabalho por passar pela sua individualidade, em maior ou menor grau”, explica.

Inclusão

Apesar do aparente elitismo, Maia lembra que, conceitualmente, a escola Waldorf é uma iniciativa inclusiva, social. Existe um olhar individualizado para a criança que não existe em outras escolas. A criança não sofre pressão para acompanhar certos processos cognitivos, que servem para torná-la uma mera peça mecânica no mercado de trabalho. “Você desenvolve pessoas mais capazes porque elas estão “em si”, não se exige que a criança se enquadre”, acredita Leonardo. “Na escola Waldorf tem muito menos bullying que na tradicional. Você não está disputando para ser melhor, porque é valorizado por qualidades que você tem, você consegue florescer qualidades que servem de inspiração para o desenvolvimento do outro. Os amigos são muito amigos na escola Waldorf, isso é incrível. Claro que também existe bullying nessas escolas, não é um conto de fadas de perfeição, mas acontece com bem menos frequência. Existe uma cobrança, de impulsionar as crianças para melhorar, mas é mais como um apoio, que não marginaliza, ajuda no desenvolvimento da empatia, o que contribui muito para o desenvolvimento da sociedade”.

Arte e saúde

“Os alunos Waldorf têm um desenvolvimento artístico bem profundo, que é estimulado em todas as fases da vida escolar. Esses alunos tem uma visão estética mais profunda. Você expõe percepções internas através da arte, você internaliza um conteúdo e externaliza através de uma atividade artística. A estética é importante para a vida. Você também é estimulado a ter saúde social e física, a cuidar melhor da sua alimentação e relações, além, claro da consciência ecológica, da importante relação do homem com a natureza”, acredita Leonardo.

Vínculos

Uma das características mais marcantes da escola Waldorf, segundo Leonardo, é o vínculo intenso entre professor e aluno. “É difícil tirar a criança dessa escola. Os pais vão buscar e ela não quer ir embora. É uma tristeza para os professores entregar a sala, pois eles mantém pra sempre um contato anímico com a criança, que é um ser individualizado. O professor acompanha o aluno do primeiro ao nono ano. Se a criança está passando por dificuldades em casa, o professor sabe e acompanha a criança de forma diferenciada. Eu como pai não saberia o que fazer se não pudesse colocar meus filhos numa escola Waldorf”.

Para saber mais:

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