Amigxs leitorxs, vocês andam assustadxs ou aliviadxs com a enxurrada de desabafos de mães na internet? Apoiam ou repudiam as mães que têm a coragem de dizer que a maternidade tem seus momentos de raiva, dúvida, medo e até arrependimento? É tudo frescura de quem “não nasceu pra ser mãe” ou uma confissão sincera e corajosa? As respostas podem estar nas nossas próprias infâncias.

Nós mulheres, quando queremos e podemos, temos o dom de viver em comunidade. Sabemos bem das nossas dores e alegrias e, de quando em quando, encontramos grupos e amigas com os quais podemos ser sinceras sobre nossos sentimentos. Mas durante muito tempo fomos meio que obrigadas a silenciar ou mentir sobre assuntos espinhosos, dificuldades e fraquezas. Especialmente em relação à maternidade. Agora, parece que estamos nos autorizando, pelo menos nas redes sociais, a falar o que pensamos e sentimos.

Tenho percebido também um forte movimento de repúdio à essa sinceridade toda. Parece que essa sinceridade choca, constrange e gera revolta em muitas de nós, especialmente entre as mais velhas, de gerações anteriores. Já ouvi de algumas delas o seguinte discurso:  “Na minha época, não tinha essa frescura de ficar reclamando que ‘ser mãe é difícil’…. A gente aguentava tudo calada, tinha muito mais filhos e se virava, na maioria das vezes, sozinha. Hoje vejo mulheres com dois ou até com filho único se desesperando, se achando incapazes, dizendo até que se arrependem de terem se tornado mães! Acho que foram muito mimadas, isso sim“.

Pode ser verdade. É fato que minha mãe enfrentou dificuldades muito maiores e muito piores do que eu. É fato que eu fui privilegiada, mimada, até. E é fato que não se falava nada ou quase nada sobre as dificuldades da maternidade, mas isso não significa que elas não existiam. Apenas foram ocultas, pois pegava muito mal (e pelo visto, pega até hoje) demonstrar sentimentos menos nobres do que a imensa alegria e gratidão por termos essas vidinhas tão especiais em nossos braços. Especialmente quando temos um filho muito desejado, esperado e sonhado.

A figura da mãe ainda está relacionada à santidade, pureza, doação, abnegação, generosidade, nobreza, delicadeza, gratidão, paciência, tranquilidade. Existe no imaginário coletivo um estereótipo de “boa mãe”, atualizado frequentemente com novas “exigências”, baseadas em descobertas da ciência, modismos ou até mesmo boas intenções vindas de profissionais da saúde, pesquisadores e educadores. A maioria de nós luta arduamente para se encaixar nesse padrão, mas posso apostar que 99,9% não consegue, pelo menos, não o tempo todo. E aí vem a culpa, a sensação de que somos “menos mães”, por alguma razão, ou por várias.

Esse estereótipo pode jogar contra uma boa, real e possível maternagem. Um exemplo são as campanhas pró amamentação, cujo objetivo é muito nobre e louvável, mas que mostram um cenário incompatível com a realidade de uma mãe no puerpério. Aqueles momentos idílicos, tranquilos, suaves, prazerosos, normalmente só existem na midia. O cenário real dos primeiros dias é muitas vezes caótico, permeado por muito choro, muita dificuldade. O que tenho visto é que a maioria das mulheres que amamenta de forma prolongada percorre um longo calvário até aprender, junto com o/a filho/a, como se comportar nesse novo território da díade mãe-bebê.

Antigamente, as exigências do “manual de boa mãe” eram menores. Minha mãe e muitas outras da mesma geração não amamentaram, não receberam informações adequadas sobre aleitamento, nem foram incentivadas a isso. Elas não tiveram esse tipo de pressão, mas por outro lado, também tinham moldes rígidos de como se comportar diante da família. Na época de nossas mães e avós, uma mulher que saía de casa para trabalhar fora, deixando as crias com babás ou em creches ainda era considerada carreirista e sem votação para a maternidade. Uma mãe que reclamava da “pouca ajuda” do marido era “preguiçosa”, pois o papel da mãe era muito claro: casa e filhos. Ao marido e pai, cabia somente o papel de provedor. E as que diziam não querer filhos, principalmente quando podiam engravidar, eram consideradas egoístas, quase aberrações.

Hoje a maioria de nós precisa complementar a renda familiar e não pode se dar ao luxo de ficar em casa com as crias. E as que ficam no lar percebem a invisibilidade de sua função, pouco ou nada valorizada pela sociedade e até mesmo pelos próprios maridos ou companheiros. Ser dona-de-casa e mãe agora não dá mais status. Muitas se sentem como se tivessem perdido a identidade, pois só eram valorizadas e reconhecidas no ambiente profissional, corporativo.

Hoje a maioria de nós exige dos homens uma participação o mais equânime possível na criação dos filhos. O pai não tem mais permissão para se ausentar dos cuidados práticos do dia-a-dia, mesmo que ainda seja o provedor. Muitas de nós cobram uma divisão efetiva das tarefas. E as mulheres que escolhem não ter filhos encontram cada vez mais liberdade para serem felizes assim, sem serem consideradas “estranhas”.

Por todos esses motivos, me parece que ser mãe hoje perdeu boa parte do glamour. E eu acho isso extremamente saudável e positivo. Maternidade não é nem um pouco o mar de rosas que imaginei, quando desejava ardentemente engravidar. Podemos amar nossas crias com o maior amor do mundo, ter muitos momentos de puro prazer, alegria e felicidade, fazer ótimas piadas de nossas dificuldades, mas sabemos que esse tsunami emocional dos primeiros dias é só um ensaio do que está por vir. É sério, é doido, e é para sempre.

Mas e aí, está mais difícil hoje? Talvez sim, porque hoje nos desdobramos em várias atividades e papéis, porque a maternidade não é nosso fim primordial, nem nossa aspiração maior. E passou a existir com mais força a pressão adicional de sermos mulheres contemporâneas, lindas, magras, saradas, dispostas, sedutoras, alegres, realizadas e ambiciosas. Talvez esteja mais difícil também porque estejamos nos libertando da mordaça, do silêncio e adentrando no terreno pantanoso das nossas próprias infâncias, cujas memórias brotam na nossa cara, quando estamos com nossas próprias crias. E porque nos damos conta de que muitas vezes estamos totalmente sozinhas nessa empreitada.

A escritora argentina Laura Gutman tem todo um trabalho voltado para a maternidade e para o impacto que nossas próprias infâncias geram na maneira como criamos nossos próprios filhos. Para ela, nada é por acaso. As mães e pais que somos hoje são resultado direto das crianças que fomos ontem. Nossas dificuldades, dores, medos, erros e acertos na maternidade ou paternidade são o produto direto do que vivemos em nossos primeiros anos, com nossos pais ou cuidadores. Longe de ser uma sentença imutável, essa é a chave, segundo Laura, para nos tornarmos pais melhores.

Ao nos permitirmos revisitar esse passado e enxergar essas dores, muitas vezes nunca faladas ou nunca reconhecidas, temos a rara e maravilhosa oportunidade de sermos sinceros, como nossos antepassados nunca puderam ser. Essa sinceridade e esses sentimentos, em vez de negativos, podem ser, segundo Laura, uma ponte para uma criação mais verdadeira, mais inteira e profunda. Só podemos fazer diferente e melhor quando temos consciência dessas dificuldades. Mesmo errando e nos culpando inúmeras vezes.

Vou falar mais sobre esse assunto, prometo. E pra você que tem certeza de que teve uma infância 100% feliz e exerce uma maternidade sem dúvidas, sem conflitos e sem culpa, meu abraço, minha admiração e esse texto aqui.

 

Anúncios