Uma pesquisa recente revelou que as mulheres, no mundo corporativo, só se candidatam a cargos de gerência ou posições superiores se tiverem certeza de que preenchem 100% dos requisitos para a vaga. Já os homens, diante da mesma oportunidade, são mais ousados: acreditam que possuir 60% das competências exigidas já é suficiente para se candidatarem. A chefe operacional do Facebook, Sheryl Sandberg, afirma que “as mulheres atribuem seu sucesso ao trabalho duro, à sorte e à ajuda recebida de outras pessoas. Homens atribuem seja qual for o tipo de sucesso às suas próprias habilidades“. E uma pesquisa da University College London diz que, enquanto os homens superestimam sua inteligência, as mulheres normalmente subestimam suas habilidades. O que está por trás disso?

A própria Sheryl responde: “Os estereótipos de gênero introduzidos na infância são reforçados ao longo de nossas vidas e se tornam profecias que se realizam sozinhas“. Desde cedo somos encorajadas, enquanto mulheres, a sermos eficientes, corretas, cordatas, obedientes, a “sabermos nosso lugar”, a nos calar diante de opiniões mais contundentes. As que se rebelam contra esses padrões são normalmente taxadas de “loucas”, são depreciadas por qualquer motivo ou pior, são consideradas “menos femininas”. Uma mulher jamais pode ser “ambiciosa demais” e inflar suas competências, pois corre sempre o risco de ser apedrejada em praça pública. Claro que vender gato por lebre é sempre errado, mas há milênios homens fazem isso e são considerados “ousados e destemidos”, pelo menos no início da farsa.

Me parece que o perfeccionismo não é somente um clichê, usado para dourar a pílula nas entrevistas de emprego. É um modo de ser facilmente atribuído às mulheres, sutil ou abertamente. A mulher, para lutar ou para merecer algo, deve dar, em contrapartida, uma prova de perfeição. Seja no corpo, no rosto, na competência, na aparência, no modo de se comportar, enfim, é preciso ser “exemplar” em pelo menos uma área da vida para que ela possa se sentir confortável em querer avançar, ousar e vencer. Trata-se de um muro que, se não for detectado e destruído a tempo, pode tolher todo nosso potencial de crescimento e realização. Se acharmos que sermos perfeitas é pré-requisito obrigatório para qualquer tentativa de avanço, seja na vida pessoal ou profissional, nunca sairemos do lugar.

Isso tem ficado cada vez mais claro para mim. Estou imersa num longo processo de reinvenção profissional, me dedicando a uma nova carreira, abandonada lá atrás, justamente porque não me considerava “perfeita” o suficiente para bancar. Meu maior desafio hoje é avançar, apesar dos erros, imprevistos e imperfeições. Ainda preciso aprender muita coisa nesse novo universo, tenho a desvantagem da inexperiência num campo novo, e tudo isso me faz pensar em desistir, muitas e muitas vezes. Mas percebo que o processo de tentativa e erro, de incerteza e dúvida, de quedas e levantes é que tem feito eu me sentir mais viva ultimamente.

Uma das coisas que mais me motiva nesse caminho é ver mulheres contando como venceram, elas próprias, esses predadores internos. Um video que me emocionou demais é o TED da ativista Reshma Saujani. “A maioria das meninas é ensinada a evitar riscos e fracassos, a ter um sorriso bonito, a optar pelo seguro, tirar boas notas. Os meninos, por outro lado, são ensinados a serem agressivos, apostar alto, subir até o topo do trepa-trepa e então se jogar com tudo. E, quando se tornam adultos, ao negociar um aumento ou até mesmo chamar alguém para sair, estão habituados a assumir riscos. São recompensados por isso. Muitas vezes é dito no Vale do Silício que alguém só é levado a sério após ter duas “start-ups” fracassadas. Em outras palavras, estamos criando meninas para serem perfeitas, e meninos para serem corajosos”, conta ela, na apresentação. Em 2012, criei uma empresa para ensinar meninas a programar, e descobri que as ensinando a programar, estava educando-as para serem corajosas. Programação é um processo sem fim de tentativa e erro, de tentar colocar o comando certo no lugar certo. Às vezes, apenas um ponto e vírgula é a diferença entre o sucesso e o fracasso. O código falha e é destruído em seguida. Geralmente, precisa haver muitas tentativas até aquele momento mágico em que aquilo que tentamos construir ganha vida. Isso exige perseverança. Isso exige imperfeição“, acredita.

Os estereótipos sexistas podem ser prejudiciais não só às mulheres, mas aos homens também. Exige-se deles que sejam sempre pioneiros, agressivos e desbravadores, sendo que nem todos querem ou possuem essas características de forma inata. Homens e mulheres presos a papéis impostos de fora pra dentro dificilmente vão conseguir manifestar concretamente seus maiores talentos. É por isso, mais uma vez, que a educação, tanto na escola, quanto em casa, precisa estar livre dessas limitações.

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