Liberdade com estabilidade, dificuldades e soluções para a ascensão profissional, inclusão das minorias negras, periféricas e com deficiência, violência doméstica e abuso sexual, novos arranjos familiares na criação dos filhos, superação de tragédias pessoais, compaixão, solidariedade e propósito de vida. Esses temas urgentes e eletrizantes deram o tom do TEDxSP, realizado em 2 de novembro, na Sala São Paulo. As palestrantes desmistificaram o “empoderamento feminino” e mostraram caminhos para uma sociedade mais igualitária entre homens e mulheres.”Já era hora de falar sobre isso“, foi o mote do evento.

As falas do último TEDxSP mostraram que estamos no limiar de uma nova onda feminista, que completa o movimento iniciado há 50 anos e amplia a discussão na luta por direitos, cidadania e dignidade. As redes sociais têm sido os megafones dessa luta, que fisga homens e mulheres no ambiente virtual e convida à mudança de atitude no chão da vida.

Na prática, como nós, mulheres, podemos ter mais liberdade e poder para mudar e conduzir nossas próprias vidas? Como nos livrar das amarras do patriarcado, do conservadorismo, do preconceito, sem perder a empatia, a compaixão e a solidariedade, atitudes tão necessárias nesse nosso mundo violento e intolerante? Reuni aqui, com base nas minhas impressões sobre o evento, 7 maneiras de empoderar as mulheres:

1 – Buscar liberdade com estabilidade e saber onde queremos chegar

Estabelecer ritmo de vida e combinar modelos é a receita proposta pela empreendedora, executiva e nômade digital Sandra Chemin. Num mundo em constante movimento e transformação, a segurança vem de rituais e rotinas que nos tragam bem-estar. Sandra propõe também a combinação de diferentes modelos de trabalho, remotos e presenciais, para que tenhamos mais liberdade de agir no mundo e encaixar nosso propósito de vida no trabalho. A executiva acredita que, mesmo em momentos de crise, é possível conquistar a tão sonhada liberdade com estabilidade. “Experimentar é fundamental, pois experimentando novos caminhos posso transformar um hobby num plano B“, afirma. “O auto-conhecimento é fundamental nesse processo, pois se eu conheço minhas luzes e sombras, talentos e dificuldades, tenho liberdade e coragem para mudar“. Para a coach de carreira Thaís Pegoraro é preciso “transformar sonhos em metas” e “fatiar os sonhos em pedaços menores e realizáveis, através de um bom planejamento estratégico“. Thaís escalou as 7 maiores montanhas do mundo em todos os continentes e usou as experiências dessas jornadas em seu projeto de reinvenção pessoal e profissional.

2 – Conquistar a verdadeira meritocracia, para competirmos em pé de igualdade

A mulher que nunca se sentiu discriminada, deve ser extremamente distraída“, brincou a colunista, escritora e advogada Ruth Manus, no início de sua fala sobre igualdade de gênero e oportunidades. Segundo ela, precisamos “parar de pedir licença” ao nos infiltrarmos em ambientes competitivos dominados pelo “homem ideal”, branco, hétero e classe média-alta. “Os homens também enfrentam dificuldades no caminho da realização profissional“, ponderou Ruth. “Mas a luta deles é meramente em função das suas próprias competências e dificuldades inerentes à profissão, que eles encontram nesse caminho. Já as mulheres têm que vencer obstáculos anteriores, como o preconceito por ser mulher“, enfatizou. Para provar que esse preconceito ainda é real e palpável, a advogada PhD em direito tributário e conselheira fiscal Raquel Preto apresentou pesquisas, rankings e dados, mostrando que a inclusão das mulheres no mercado de trabalho, ao longo da história, passou obrigatoriamente pela adoção de políticas afirmativas e inclusivas, conduzidas pelos governos, especialmente nos países nórdicos, que neutralizaram a discriminação de gênero na hora da competição por uma vaga. “A meritocracia só existe de fato se o ponto de partida for igual para todos“, afirmou. “Os obstáculos culturais que reforçam o fundamentalismo de gênero não podem ser simplesmente saltados, eles precisam ser derrubados“, enfatizou Raquel. Minha observação pessoal: é esse o perigo de um país governado por um “estado mínimo”, que permite que “o mercado” regule sozinho a oferta e preenchimento de vagas de trabalho. Mas isso é assunto para outro post…

3 – Incluir e dar voz às mulheres negras, periféricas e com deficiência

A luta da mulher por mais liberdade individual de agir no mundo passa, obrigatoriamente, pelo coletivo. Não há como falar em luta feminista e fim de discriminação de gênero se antes disso não houver um real esforço no sentido de ouvir as mulheres negras e periféricas, que além do preconceito de gênero, sofrem também preconceito racial e social. Preta Rara, palestrante e criadora da página “Eu, empregada doméstica, arrancou lágrimas e aplausos entusiasmados da platéia em diversos momentos de sua fala, narrando seus sete anos vividos como doméstica e histórias dramáticas registradas na página. Histórias de abuso, crueldade, discriminação, escravidão, que persistem até os dias de hoje. “Eu vim aqui para incomodar vocês“, resumiu Preta, cuja figura poderosa e eloquente nos fez rever nossos próprios preconceitos. A empreendedora social e massoterapeuta Alice Rossi falou sobre seu trabalho de capacitação de jovens e adultos com deficiência visual através de cursos de massagens. “Temos hoje 6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual no Brasil e esse número deve dobrar até 2020“, contou Alice. “São pessoas que têm muito a contribuir, mas precisam de oportunidades“. A soprano e deficiente visual Giovanna Maira, acompanhada do grupo Titanium in Concert, numa performance emocionante, fez o show de encerramento do evento e agradeceu pela popularização do tema da inclusão.

4 – Denunciar os abusos e tratar os abusadores

Abuso e violência contra a mulher são temas ainda polêmicos e controversos. Para dar fim à culpabilização da vítima, é preciso ouvir de verdade as mulheres, seus relatos de dor, vergonha e medo. Mas é preciso também ouvir os homens perpetradores dessa violência, entender os mecanismos que criam e mantém essa violência. É nisso que acredita Sérgio Barbosa, filósofo, sociólogo e coordenador do projeto “Tempo de Despertar“, serviço de responsabilidade para homens autores de violência contra a mulher, na grande São Paulo. Segundo Sérgio, a troca de experiências, o chamado à responsabilidade pela agressão e a conversa franca entre eles têm reduzido os índices de violência doméstica. “Um membro do programa confessou que tinha desistido de matar a mulher depois de uma das sessões“, contou. Para Sérgio, o patriarcado e os modelos violentos de masculinidade que vigoram até hoje não prejudicam somente as mulheres, mas também (e em primeiro lugar) os homens. “Precisamos redefinir o que significa ser homem hoje“, acredita ele. A cantora Nina Oliveira, de apenas 19 anos, retratou em versos e canções algumas histórias corriqueiras de abuso, vividas por quase todas nós, nos espaços públicos e privados, desde a cantada grosseira na rua até as marcas no corpo. “Ele me deixou marcas e não eram de batom“, cantou. Apesar da aparência frágil e da voz suave, quase infantil, Nina eletrizou a platéia: mostrou tanta força, lucidez e grandeza que me emocionou profundamente e me encheu de esperança em relação às novas gerações de mulheres que vão construir suas próprias histórias de uma forma diferente.

5 – Propor novos modelos de paternidade e maternidade, através de novos arranjos familiares

A redefinição dos papéis familiares é fundamental para a construção de gerações futuras, pautadas pela igualdade de gênero. É o que defende a psicóloga Mafoane Odara, coordenadora da área de enfrentamento à violência contra as mulheres do Instituto Avon e uma das diretoras do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Mafoane falou sobre a própria experiência familiar, na qual o marido saiu do trabalho por um ano, para acompanhar o crescimento do filho recém-nascido, enquanto ela voltou a trabalhar após a licença-maternidade, o que causou estranheza e questionamento, por parte de conhecidos e desconhecidos. “As pessoas me perguntavam: com quem está seu filho? E quando eu respondia que estava com o pai, elas diziam: ‘mas você não arrumou ninguém para ficar com ele’?”, contou, entre risos da plateia. “É preciso quebrar os estereótipos de paternidade. Para participar ativamente da criação dos filhos, o homem precisa entrar em contato com seu lado vulnerável, que ao contrário de ser fraco, é um lado que estimula a criatividade e a transformação“, disse.

6 – Recuperar o poder da emoção para transformar nossas vidas

Nessa luta por igualdade de direitos, muitas de nós deixaram de lado o contato com as próprias emoções, para ingressarmos e vencermos no mundo masculino e patriarcal. Mas a emoção é um componente essencialmente humano, antes de caracterizar qualquer um dos sexos. Sem entrar em contato com as próprias emoções, adoecemos. É o que aconteceu com a psicopedagoga e especialista em neuropsicologia Adriana Foz. Um AVC hemorrágico, que deixou parte de seu corpo totalmente paralisada, marcou o início de uma nova maneira de viver e agir no mundo. Graças à plasticidade emocional, Adriana recuperou os movimentos e hoje coordena o projeto “Cuca Legal“, na UNIFESP, que ensina as pessoas a utilizar essa poderosa força de transformação pessoal. “É a emoção que liga a mente ao corpo“, afirmou. “Diante das piores situações da vida, nós sempre temos escolhas“, acredita Adriana. “É preciso ensinar às nossas crianças a valorizar e cuidar das suas emoções“. Uma maneira lúdica e instintiva de cuidar do coração, nosso maestro das emoções, é através da música. A cantora e psicóloga Mariana Bataglia, criadora do grupo Saracura e do projeto “Canta pra Sarar“, que leva música ao vivo para alguns hospitais de São Paulo, contou histórias tocantes sobre o poder da música na hora da morte e na superação de situações de quase-morte, como o AVC de Adriana.

7 – Cultivar a solidariedade, para nos encaixarmos no universo

A busca pelo nosso propósito parece ser o grande desafio contemporâneo, para ambos os sexos. Sentimos que precisamos nos encaixar em nós mesmos, no mundo, na vida. A fundadora do Instituto “A nossa Jornada“, Renata Quintella, ensina que o caminho de descoberta do propósito é simples: basta amar, cuidar e compartilhar com os outros o que temos de melhor. Através da pergunta: “O que posso fazer por você agora?“, Renata iniciou uma jornada de poderosa transformação pessoal e social, aglutinando voluntários em torno de ações solidárias e ajudando muitas pessoas. “Quando tive a coragem de dizer ao mundo quem eu sou e quando fiz essa pergunta ao mundo, eu finalmente me encaixei no universo“, contou. “Quando a gente cuida do outro, o universo cuida da gente“, acredita. E o que fazer quando não é possível amenizar a dor do outro? “Diante da dor, ame“, sentenciou Renata, empunhando em seguida um cartaz (foto) com a pergunta que transformou a vida dela – e acho que vai transformar a minha também.

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