Carlos Gonzales é conhecido como o “pediatra que quebra regras”, mas o que ele diz e defende está profundamente enraizado no passado. Não na época de nossas mães, avós ou bisavós, mas há 1 milhão de anos, quando ainda nem éramos conhecidos como homo sapiens. Segundo ele, essa fase da evolução humana explica, ainda hoje, o comportamento da imensa maioria dos bebês. O pediatra catalão esteve em São Paulo, em 19 de novembro, numa palestra organizada pela Editora Timo, que publica três livros dele no Brasil: “Besame Mucho“, “Manual prático de aleitamento materno” e “Meu filho não come“. Num auditório lotado de pais, mães, educadores, profissionais ligados à infância, além de muitos bebês, ele falou sobre choro, instinto materno, afeto, ciúme, birras e alimentação.

Nos primeiros 3 meses de vida, o choro é o principal meio de comunicação do bebê com o mundo externo. “Por que chora tanto essa criança? Não tem fome, não tem sede, não tem frio, qual o problema?“, é uma das perguntas que Gonzales mais escuta dentro e fora do consultório, quando se trata de recém-nascidos. “Hoje temos um teto, babá eletrônica, berço à prova de acidentes, creches da melhor qualidade. A questão é que a criança não sabe disso! Quando se vê longe da mãe, mesmo que seja só para a mãe ir ao banheiro, ela não entende onde a mãe está, nem se e quando vai retornar“, explica.”No início, nossos filhos são completamente apaixonados por nós. Espere até 15 anos para ver o que acontece quando seu filho não precisar mais de você“, provoca.

“Instinto materno”

Gonzales afirma que estamos programados, genética e biologicamente, para acolher e cuidar dos pequenos, mas o instinto materno ainda é um mito. “Os bebês são atraentes e simpáticos, pois dependem totalmente de cuidados de outras pessoas para sobreviver. Seu trabalho é despertar o desejo dos adultos de cuidar deles, atraves do riso e do choro“, afirma. “Uma criança separada da mãe deve chorar, essa é a reação esperada e natural. Às vezes tratamos nossos filhos como se fossem marcianos“. E acrescenta: “O instinto materno não é universal. Há mulheres que não querem ter filhos. O desejo por sexo é instintivo, mas o desejo de ter filhos é cultural, da mesma forma que desejamos ter um emprego, uma casa, um carro“, acredita.

Apego seguro

Nenhum animal sobre a Terra necessita tanto de cuidados maternos quanto os animais humanos. Há 1 milhão de anos, as mães cuidavam dos filhos e os traziam junto a seus corpos o tempo todo. Todos nós descendemos dessas mulheres, que escolheram não abandonar seus filhos” conta Gonzales. No início da vida do bebê, especialmente até os 3 anos, o pai é um cuidador secundário. “O pai ainda disputa esse título com os avós e até com o bicho de estimação“, brinca. Essa afirmação, apesar de verdadeira, me parece um pouco perigosa, já que vivemos numa sociedade patriarcal, na qual a criação contemporânea dos filhos, para gerar impacto positivo e reduzir o machismo e a desigualdade entre homens e mulheres, deve passar por uma justa divisão de tarefas.

Como manter esse vínculo forte, num mundo tão frenético, com multiplos interesses, atividades, objetivos? O pediatra busca a resposta, de novo, no passado, na sabedoria dos nossos ancestrais e na cultura de algumas tribos e povos, que ainda persiste em alguns países: usar um pano amarrado ao corpo da mãe e carregar a criança consigo, o maior tempo possível. O uso de slings, que hoje nos parece “moda hippie”, é tradição das mais antigas e surgiu para que as mulheres pudessem trabalhar no campo, buscar água e cuidar da subsistência, mantendo o vínculo físico e emocional com os filhos. A mãe ancestral e a mãe da tribo longínqua não sabem o que é patriarcado e machismo. Elas carregam os filhos porque não têm escolha, segundo Gonzales. Mas não basta carregar o filho o tempo todo junto ao corpo se não houver disponibilidade emocional: “Há apego seguro e inseguro. O apego seguro se desenvolve quando a criança percebe que o cuidador responde à maioria de suas solicitações. É impossível atender 100% das demandas dos filhos“, pondera.

Creche ou babá?

O pediatra defende também que as crianças fiquem com a mãe ou cuidador exclusivo até os 3 anos, antes de irem para a creche ou escolinha. Chega a comparar escolas e creches a “prisões” e “campos de concentração“, devido ao impacto emocional que esses podem causar em menores de 3 anos. “Somente a partir dos 3 anos é que a criança entende que a mãe vai retornar e tem condições emocionais de ficar na escola”, diz ele. “Costumamos dizer que uma criança que não chora mais ao ficar na escola está adaptada, mas para mim ela está resignada“, dispara.

E como fica a questão das mães que precisam trabalhar, especialmente aquelas que sustentam financeiramente a família? E das que não precisam, mas ainda assim querem trabalhar? Gonzales também não oferece saídas fáceis: “Cada qual conhece sua situação econômica e vê o que pode se permitir. Temos que tomar a responsabilidade de tentar estar com nossos filhos o tempo que consideramos suficiente. Quanto é esse tempo? Não vou dizer para vocês, se são seis meses, dois anos ou cinco anos, vocês é que decidem. Se você pensa que voltar a trabalhar após a licença maternidade é doloroso para você e para seu filho, bem, tem que fazer outra coisa. E se volta a trabalhar, mas você e seu filho estão contentes, então está tudo bem“, afirma. “Quando compramos um carro, isso pode custar um ano ou ano e meio do nosso salário. Há coisas que custam muito mais. Se não tivermos cuidado, chegará um dia em que podemos nos dar conta de que gastamos muito mais tempo dentro de nossos carros do que com nossos filhos. Sei que dói pensar nessas coisas, mas dói mais quando se passam 20 ou 30 anos e nos damos conta disso“.

“Vida de casal”

Segundo o pediatra, é importante entender que a chegada de um filho muda radicalmente a dinâmica familiar e que a criança, especialmente nos primeiros anos, não deve ser distanciada da mãe, em nome de uma “volta à normalidade“. Exigir que a criança seja independente antes do tempo, nos afastando fisicamente dela, de responder às suas necessidades emocionais para resgatar nossa própria autonomia e independência, segundo ele, é um dos maiores equívocos que podemos cometer. “Ainda interpretamos o acolhimento a uma criança como fraqueza, como se a criança nos manipulasse para conseguir o que quer“, lamenta. “Mas o ser humano é o animal que mais demora a ficar independente da mãe. E a maioria de nós, homens e maridos, entendemos que, no início da vida, a criança precisa mais da mãe do que nós“, acredita. “É preciso aceitar que nunca mais seremos apenas um casal, agora somos uma família, o que é melhor, por isso escolhemos ter nossos filhos. Não queremos ter filhos para viver como se não os tivéssemos. Se acreditamos que é melhor viver como casal, então não tenhamos filhos”, sentencia.

Birras e ciúmes

Gonzales aponta também outras questões que inquietam pais e mães contemporaneos: as birras e os comportamentos violentos, especialmente na hora das brincadeiras entre irmãos ou amigos. “Tudo isso é normal“, enfatiza. “Esperar que as crianças ajam como adultos é uma perda de tempo. Às vezes nós mesmos somos irracionais, imagine as nossas crianças, que ainda não têm condições cerebrais de controlar os próprios impulsos“. O pediatra afirma que é bem mais comum o ciúme do filho mais velho quando a diferença de idade para o mais novo é pequena. O mesmo mecanismo que provoca o choro (sensação de abandono) também está presente no ciúme. Gonzales orienta que pais e cuidadores tratem a questão com naturalidade e evitem demonstrar desequilíbrio ou preocupação excessiva em relação às diversas manifestações desse ciúme: “Acolha a criança, mostre a ela que pode demonstrar seus sentimentos e não dramatize a questão“, aconselha. O mesmo vale para as birras e brincadeiras violentas, quando a criança agride um colega ou irmãozinho: “Peça desculpas aos pais da criança que foi agredida e tire o agressor da cena. Sermões e castigos não têm nenhum efeito até os 3 anos, pois a criança ainda não entende nada sobre limites“, explica.

Na segunda parte do evento, o pediatra falou sobre a tão debatida falta de apetite das crianças. No livro “Meu filho não come“, ele tenta tranquilizar pais e mães e acabar com a cultura de forçar as crianças a comer. “A responsabilidade dos pais está limitada a oferecer uma variedade de alimentos sadios. A responsabilidade de escolher essa variedade e decidir a quantidade que cada um ingere não é dos pais mas, sim, dos filhos“, diz ele, num trecho do livro. Para saber mais dicas do pediatra em relação à alimentação, veja matéria aqui.

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