Estamos quase no final de 2016, um ano duro e desafiador, especialmente em nível político e econômico. Às vezes fica difícil manter o otimismo. Mas a palestra da cineasta Estela Renner, criadora da Maria Farinha Filmes e da fundadora do Instituto Alana, Ana Lucia Villela, realizada na escola Waldorf Rudolf Steiner, em 24 de novembro, me deixou emocionada e esperançosa. A potência de duas mulheres que, através da amizade e da parceria, estão tentando mudar o mundo, me contagiou também.

Os filmes “Muito Além do Peso“, “Criança, a Alma do Negócio” e “O Começo da Vida” são alguns exemplos da força desse encontro. A capacidade da dupla de agregar, mobilizar e refletir está conseguindo abrir um canal de diálogo inédito com as grandes corporações (especialmente as indústrias de alimentos e bebidas). Os filmes foram escolhidos pela ONU e Unicef como peças importantes na conscientização planetária sobre uma sociedade mais justa e saudável para nossas crianças.

Ana Lucia e Estela se conhecem desde a infância e traçaram caminhos diferentes na adolescência, vindo a se reencontrar na idade adulta, já mães, com questionamentos e objetivos comuns. Impossível não notar entre elas uma troca intensa de afeto e admiração, coisa linda de se ver, especialmente num mundo onde a rivalidade entre mulheres ainda é tabu. Nesse casamento de potências e talentos, Ana trouxe a capacidade de organização, realização e mobilização e Estela trouxe a sensibilidade artística e a capacidade de traduzir em imagens o que Ana Lucia tanto queria dizer ao mundo.

O primeiro documentário da dupla foi “Criança, a Alma do Negócio“, feito de forma amadora, em 2014, que teve um resultado bombástico nas redes sociais. O Instituto Alana nasceu de um profundo incômodo no coração de Ana Lucia, que desde muito cedo realizava trabalhos sociais de inclusão por meio da educação, em comunidades carentes. “O excesso de publicidade, hábitos e valores consumistas era preocupante em todas as escolas em que passei“, conta ela. Esse incômodo motivou a dupla a abordar, de forma clara e contundente, os malefícios que a sociedade de consumo causa em nossas crianças, de todas as classes sociais. O filme foi doado para a TV Cultura, que celebrava na época o primeiro ano sem publicidade dirigida às crianças.

O segundo trabalho, “Muito Além do Peso“, “foi muito difícil de fazer“, segundo Estela. “Foi difícil ver crianças de até 3 anos com problemas de saúde de adultos. 33% das crianças brasileiras têm sobrepeso e resolvemos abordar as causas multifatoriais do problema, em vez de culpabilizar somente a criança“, conta. “A epidemia de obesidade não é só culpa dos pais, mas do ambiente obesogênico em que vivemos“, acrescenta. O impacto do filme gerou mudanças antes impensáveis. As maiores empresas de bebidas, em nível global, declararam que não mais anunciariam nem venderiam refrigerantes nas escolas. “Nós aprendemos a dialogar com respeito com essas empresas. Não existem só mocinhos e só bandidos nessa história. Precisamos dialogar para mudar a realidade“, acredita Ana Lucia.

O filme “Território do Brincar“, feito em parceria com a educadora Renata Meirelles, segundo Estela, “escancara a potência da criança” e “não é um filme propriamente de denúncia, mas traz alternativas ao uso massivo da tecnologia“. Renata e o marido, David Reeks, percorreram o Brasil de norte a sul, registrando o brincar sob as mais diferentes formas, permeado pela cultura própria de cada local, mas resgatando tradições comuns à toda cultura brasileira. O objetivo do filme é resgatar o poder das brincadeiras espontâneas da infância, usando como recursos o meio-ambiente disponível (água, terra, areia, madeira, materiais diversos) e a mágica da criação infantil, que tudo transforma, por meio da fantasia. O filme também mostra que é possível, segundo Estela, resgatar o brincar livre até mesmo num ambiente extremamente urbanizado. “O filme nos mostrou que crianças dos apartamentos também sabem brincar“, diz ela.

Em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Estela e Ana Lucia fizeram recentemente o documentário mais visto nos cinemas brasileiros de 2016, “O Começo da Vida“, obra que me impactou profundamente (falo mais sobre o filme aqui). A Fundação queria ter à mão um material poderoso, abordando a importância dos primeiros 3 anos de vida da criança e delegou a tarefa à dupla. “Esse filme é um diálogo que legitima o poder do amor“, conta Estela. O doc já foi visto em quase 200 países e é peça central da atual campanha da UNICEF pela primeira infância. Graças à plataforma Videocamp, também criada pela dupla, o filme pode ser visto gratuitamente em exibições coletivas, organizadas pelos próprios participantes, além de estar disponível na Netflix. “Só 10% das cidades brasileiras têm cinema. O Videocamp nasceu para ampliar isso“.

Na esteira criativa de Ana Lucia e Estela, estão sendo produzidos simultaneamente sete documentários, abordando mudanças climáticas, aquecimento global, agricultura orgânica, entre outros temas urgentes e necessários. Muita coisa boa vem por aí. “Precisamos sonhar alto. A gente precisa fazer junto, porque assim dá certo“, acreditam, provando que, quando o amor é a força motriz de um trabalho, nada é impossível.

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