Estou há alguns meses fora do ar, mas por um bom motivo: fiquei envolvida na criação da minha nova página sobre cerâmica, que acaba de sair do forno. Eu que me gabava de fazer várias coisas ao mesmo tempo, confesso que não consegui. Mergulhei de cabeça nesse novo universo e não tive olhos para mais nada. O que era apenas um hobby ou uma expressão de um desejo há muito reprimido, tomou um caminho inteiramente inesperado.

Ainda não sei que rumo a cerâmica vai tomar em minha vida (e essa sabedoria da incerteza por vezes me amedronta) mas quando mergulho as mãos no barro, sinto que estou viajando num fluxo de bem estar, guiada pela certeza de estar fazendo algo que amo. E isso não tem preço.

Mas… (sempre há um porém, né?) essa dedicação toda não me impediu de sentir culpa por não conseguir me dedicar ao blog como gostaria. Ficou uma sensação de que estava faltando algo, ainda mais porque o fim do ano foi marcado por dias de lazer descompromissado em família, não deixando espaço para mais nada. O ócio pode ser um bom combustível para a criatividade e a liberdade de pensamento, mas optar por ele ainda me parece o luxo dos luxos, um pecado sem perdão. Num mundo em crise e com perspectivas incertas, a eficiência tem sempre mais status que o ócio criativo. Percebo que existe uma construção social muito forte confirmando essa crença.

A grande ironia desses nossos tempos é que, com a desculpa de sermos eficientes e fazermos várias coisas ao mesmo tempo, graças às novas tecnologias, estamos todos nos distraindo, o tempo todo. E os efeitos colaterais de tanta distração já apareceram: temos aplicativos que monitoram as horas passadas no celular e oferecem dicas de detox das telas. Temos profissionais especializados em nos ajudar a otimizar cada segundo passado nas redes sociais. Sabemos que o vício em tecnologia pode ser equivalente ou pior que o vicio em drogas e já temos programas para tratá-lo. Mesmo sabendo de tudo isso, mergulhamos em nossas telas e extrapolamos as fronteiras do trabalho e do lazer. Então, como estamos sempre conectados, não é de admirar que estejamos sempre cansados – mesmo quando dizemos que estamos descansando!

“Como estamos sempre conectados, não é de admirar que estejamos sempre cansados – mesmo quando dizemos que estamos descansando!”

Nessa nuvem de distração, sobra pouco tempo para o dolce far niente e ironicamente, acabamos perdendo em produtividade, criatividade e eficiência. O importante, no final das contas, é parecermos sempre ocupados, mesmo quando poderíamos estar descansando e recuperando energias. Precisamos justificar cuidadosamente nossos momentos de lazer, para que sejam socialmente legítimos.

Descansar, contemplar, apreciar são verbos que hoje precisam de todo um aparato midiático para que sejam palatáveis. A meritocracia e até mesmo a estafa física ou mental ajudam a fechar a conta: “Posso ou preciso descansar, pois me matei de trabalhar, então mereço ou preciso disso“. A visão do trabalho como punição e dever e do descanso como redenção parece nos acompanhar desde a expulsão do paraíso. Reclamar do excesso de trabalho confere status e pontuação necessária para que possamos gastar depois, sem culpa, aquelas benditas horas de lazer, invejadas por todos.

Nem mesmo as nossas crianças são poupadas. As férias dos pequenos precisam de ação e diversão permanentes. Deixar as crianças sentirem tédio e ficarem simplesmente à toa em casa é um risco que poucos pais e mães contemporâneos estão dispostos a correr. É preciso que a agenda das férias seja montada de forma a não deixar espaços vazios para o inesperado ou mesmo para a livre brincadeira. É preciso que eles se acostumem logo com essa roda viva de compromissos e obrigações, ensaiando aos poucos a “vida de adulto” para a qual estamos obsessivamente mirando, quando pensamos em educá-los.

Nesse sentido, as crianças que não dispõem de tantos recursos, de agenda cheia ou de brinquedos caros e tecnológicos, levam vantagem. Vivendo uma aparente restrição de oportunidades, elas precisam criar suas próprias brincadeiras e gerenciar o próprio tempo, com recursos limitados. Essa aparente escassez é, na verdade, o passaporte para a criatividade e a capacidade de encarar a realidade e resolver problemas mais complexos no futuro. Permitir essa escassez talvez seja para elas – e também para nós – nosso maior desafio.

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