Boa parte da minha infância se passou nos anos 80, quando floresceu a autoajuda. Palavras como amor próprio e autoestima foram bombardeadas pelos “gurus” da época, na TV e nos livros. Até hoje temos essa tendência de achar que autoestima é o maior bem que podemos deixar para nossos filhos. O fato de confundirmos elogio com encorajamento pode explicar em parte porque a autoajuda acabou sendo motivo de escárnio.

Os elogios gratuitos, já se sabe, são contraproducentes. Pesquisas recentes mostram que crianças muito elogiadas por sua inteligência, por exemplo, têm medo de se arriscar a aprender algo novo, justamente para não perderem essa etiqueta. Elas precisam acertar de primeira e obter sucesso o quanto antes, senão desistem de tentar. Na melhor das intenções, podemos criar um ser humano que vai avançar pouco na vida, com medo de ser imperfeito.

A mania de elogiarmos as meninas pela beleza (algo que eu faço bastante, admito) também pode ser um tiro no pé. Numa sociedade onde a mulher ainda é massacrada para seguir determinados padrões estéticos, vincular demonstrações de afeto à aparência pode gerar transtornos alimentares e de imagem no futuro. Claro que beleza pode ser elogiada, mas deve ceder espaço para outras qualidades igualmente femininas: força, coragem, determinação, cooperação, solidariedade, etc.

Eu já sei que elogiar o tempo todo não é legal, mas fui uma criança que raramente foi elogiada. Talvez esteja aí o nó. Talvez o narcisismo nosso de cada dia também se faça presente através dos elogios e acabe contaminando o que deveria ser uma simples demonstração de amor. Mas se a gente ama tanto essas crianças e se nossos filhos são mesmo tão sensacionais, o que fazer?

Recomenda-se que o elogio não seja à personalidade e sim à atitude, ao esforço. Dessa forma, a criança terá sempre como recorrer a um recurso interno para lidar com problemas e frustrações. E não precisa se apegar a nenhum rótulo, positivo ou negativo. Pode mudar de atitude a qualquer momento, pois sente que o amor e a aprovação dos pais não estão ligados a características imutáveis.

É importante lembrar que a criança ainda não tem um filtro interno que module o comportamento. É sempre tudo ou nada. E esse extremismo pode ser facilmente transferido para a idade adulta. Se eu sou sempre “a obediente”, posso me cristalizar nesse padrão e ter muito medo de questionar uma autoridade, mesmo quando a melhor saída é fazê-lo, para me defender de um abuso, por exemplo. Se sou sempre “a forte”, não posso fraquejar nunca. Se sou sempre “a carinhosa”, não posso demonstrar minha raiva com honestidade. Se sou sempre “a alegre”, preciso esconder minha tristeza, para agradar quem me elogia.

Outra coisa a ser evitada, dizem os especialistas, é o elogio como forma de manipulação. “Que menina linda, comeu tudo!”, exclamamos, sem nos darmos conta do absurdo de conectar uma característica física como “linda” ao ato de “comer tudo”. Uma coisa nada tem a ver com a outra, mas acreditamos que, ao elogiar, vamos reforçar determinado comportamento positivo. Isso até pode funcionar a curto prazo, mas acabamos criando uma dependência de elogios para que ocorra uma ação positiva.

Quando aponto uma atitude corajosa de um filho, pontuando exatamente o momento em que ele demonstrou essa coragem, eu o ajudo a perceber que sempre há uma escolha e que ele tem plenas condições de fazê-la. Encorajar, no dicionário, é alentar, incentivar. Atitudes que demandam ação, tanto do encorajador, quanto do encorajado. E coragem, no dicionário, é constância e perseverança diante do sofrimento. Algo que, eu aposto, desejamos mais para nossos filhos do que uma banalizada autoestima.

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