Todos os pais e mães já ouviram essa frase: “Aproveita, porque passa muito rápido!“. No meio das madrugadas insones, cheirando a leite, embaladas por choros e cansaço sem fim, fica difícil acreditar nisso. Mas quando me dei conta, dei de cara com uma menininha falante e articulada, imersa num mundo de fantasia, cheia de vontades e determinação. Onde foi parar minha bebê? E o que tudo isso veio me ensinar?

Aquela boquinha banguela e sorridente, mãozinhas e pezinhos minúsculos, quase careca, as dobrinhas, o cheirinho… tudo desapareceu em alta velocidade. Por mais fotos que eu tenha tirado, por mais beijos e abraços que eu tenha dado, parece que não foi suficiente. Agora ela se joga em meu colo num salto, tem pouco mais da metade do meu tamanho, as pernas muito compridas, os olhos muito vivos, cabelos encaracolados. Ainda há um perfume sutil de bebê, bochechas rosadas, um restinho de moleira que ainda não fechou, uma pequena dobrinha nas pernas, a maciez da pele e a carinha de anjo. Vou registrando na mente e no coração cada detalhe, sentindo uma pontada de dor, por saber que daqui a pouco tudo isso também será história.

Ser mãe é dizer adeus a prestação, em parcelas minúsculas, que se avolumam em progressão geométrica. Adoro e incentivo a independência dela, mas também sinto uma nostalgia, uma saudade que aperta o coração. Hoje peguei nas mãozinhas dela e fiquei tentando imprimir na alma aquela sensação de calor, maciez e aconchego. Uma das coisas mais espetaculares de ser mãe é perceber como apenas alguns segundos na vida podem ser mágicos, intensos, emocionantes e cheios de significado.

Ela me ensina a prestar atenção, enquanto imergimos bem fundo numa história de fantasia. A sala é uma floresta, os bichinhos de pelúcia têm vida, personalidades distintas e nomes engraçados. O sofá é um avião, que daqui a pouco vira um trem, que desemboca no Rio Pinheiros, ignorando toda a poluição e aridez da cidade. Uma palavra dita de forma diferente causa gargalhadas de perder o fôlego. E os abraços espontâneos são carinhos na alma que chegam a doer, de tanto amor.

Ela me ensina a viver com intensidade cada momento, porque pra ela cada momento é único. Depois de adultos, temos a tendência a sentir tédio, talvez porque nossas células não cresçam e se multipliquem tão rápido e as descobertas do cotidiano tenham se reduzido a quase nada, afogadas na rotina. Mas quando eu resolvo deixar um pouco essa adulta de lado, percebo que sim, no meu corpo, as células ainda se renovam. E na minha rotina há detalhes que, através do olhar atento de uma criança, se transformam em grandes novidades.

De qualquer forma, eu sou rebelde. Fui adestrada para ver mais valor no mundo de gente grande. Fico querendo fugir, fazer alguma atividade que no momento me parece mais urgente. As distrações são inúmeras. Muitas vezes sinto que “estou perdendo tempo” quando resolvo mergulhar junto com ela. E o mais incrível é que ela tem mais paciência comigo do que eu mesma e vive me pegando pela mão e me chamando de volta. E sempre que eu retorno, entro numa zona protegida do tempo e do espaço, onde a menininha que eu fui pode voltar a brincar.

Anúncios