Um dos maiores TEDx de todos os tempos aconteceu em agosto, aqui no Brasil. Sediado na arena Allianz Parque, em São Paulo, organizado por mais de 400 voluntários, para mais de 8 mil pessoas e patrocinado por um gigantesco grupo educacional, foi também transmitido ao vivo no Facebook. Durante um dia inteiro, cerca de 45 palestrantes, apresentadores e artistas mostraram a necessidade de exercitarmos um outro olhar sobre a Educação no Brasil: um olhar mais humano, abrangente, solidário e diverso.

Confesso que o TEDxSP do ano passado mexeu mais comigo. Apresentado num ambiente mais intimista, com um público menor, palestras mais longas e menos convidados, trouxe mais profundidade aos temas abordados (veja minhas impressões aqui). Este ano, os palestrantes tiveram bem menos tempo para expor suas ideias, o que a meu ver não permitiu explorar todo o seu potencial e tornou o evento bem cansativo. Mas o tema central da Educação sempre me atrai, então não me arrependo de ter participado.

Com a presença maciça de professores e alunos, o TEDx SP 2017 foi uma catarse coletiva em vários momentos. Já é senso comum que o atual modelo educacional está ultrapassado, mas avançamos pouco na transição para um modelo mais humano. Submetidos a interesses econômicos e sociais, que mantém a linha de montagem do sistema em funcionamento, ainda produzimos meros trabalhadores para o mercado, em vez de seres humanos integrais. Mas esse velho modelo está em decadência, gerando um incômodo que não pode mais ser ignorado.

A socióloga e consultora em educação Lourdes Athiê reforçou a necessidade de auto-valorização dos professores. Uma mudança na postura pessoal de cada educador é fundamental, segundo ela, para que a classe seja mais valorizada e respeitada socialmente. Numa época em que agressões a professores estão cada vez mais corriqueiras e brutais, as palavras de Lourdes provocaram uma verdadeira comoção. “Não podemos cobrar da escola o que não é papel da escola. Professor não é policial, babá, porteiro ou psicólogo“, reforçou ela. “Temos que parar com o automatismo na educação. Temos que ter a coragem de jogar fora conteúdos inúteis. Eu pessoalmente não gosto do Dia do Professor, prefiro uma vida inteira de respeito“, finalizou, sendo ovacionada pela plateia.

Temos que parar com o automatismo na educação. Temos que ter a coragem de jogar fora conteúdos inúteis” (Lourdes Athiê)

O educador Braz Nogueira contou sua experiência de mais de 20 anos na rede pública de ensino e reforçou a ideia de romper com modelos ultrapassados. Para recuperar a escola Campos Salles, em Heliópolis, da violência generalizada e da depredação, Nogueira usou como referência o modelo da Escola da Ponte, em Portugal. “Abaixo à padronização e viva a criatividade em todas as escolas do mundo“, bradou.

Aos poucos, os alunos também estão mudando suas próprias posturas, exigindo uma maior participação e protagonismo nas decisões estudantis. Debora Pessoa contou a incrível transformação da sua escola em Cascavel, no Ceará. Através da literatura de cordel, os alunos recuperaram a história da cidade e se inscreveram em competições municipais, estaduais e federais, conquistando por fim o prêmio “Criativos da Escola“, com repercussão nacional e internacional. “Estudar vai muito além de conseguir um emprego e ganhar dinheiro para sustentar as estruturas desse sistema, mas quem defende essa visão está sofrendo represálias“, afirmou a estudante paranaense Ana Clara Nunes, de 14 anos, selecionada para o Projeto Transformar.

Estudar vai muito além de conseguir um emprego e ganhar dinheiro para sustentar as estruturas desse sistema” (Ana Clara Nunes)

O atual sistema, ainda baseado em dogmas, exige das crianças uma maturidade artificialmente construída na base da punição e do castigo e pode produzir seres humanos adoecidos, com sérios comprometimentos emocionais e mentais. É o que defende o psicólogo, pesquisador e professor Alessandro Marimpietri, ao falar sobre a perigosa e crescente medicalização da infância. “O modelo educacional ainda é baseado na disciplina, no se adaptar para fazer parte, na ideia do dever, na lógica da obediência. Hoje parecemos estar mais livres e conseguimos ajeitar o coletivo à subjetividade, mas o preço que pagamos é o da performance a todo custo. O paradoxo é que ainda queremos crianças quietas e obedientes, mas que também sejam criativas e inovadoras. E quando a criança não dá conta disso, é rotulada de doente“, explicou.  “Existem crianças com transtornos reais e a medicação é necessária, mas quando uma criança se desvia de nossas expectativas não podemos ter um pensamento mágico de que uma substância química vai resolver isso“, acredita.

Alguns palestrantes também reforçaram a necessidade de olhar além dos conteúdos tradicionais que visam o bom desempenho no vestibular e um lugar ao sol no mercado de trabalho. O explicador Rodrigo Geribello mostrou que o grande desafio no mundo contemporâneo é ser entendido. “É fácil chamar a atenção, o difícil é ser entendido“. Segundo ele, somos todos explicadores, desde o momento em que nascemos. “Para ser entendido é preciso fazer escolhas: como escolher o que o outro se interessa?”, questionou.

O paradoxo é que ainda queremos crianças quietas e obedientes, mas que também sejam criativas e inovadoras. E quando a criança não dá conta disso, é rotulada de doente” (Alessandro Marimpietri)

O talentoso fotógrafo de nebulosas e galáxias Kiko Fairbairn e o cientista Luiz Eduardo Anelli prenderam a atenção da plateia, mostrando que há muito mais na nossa história geológica do que se ensina em sala de aula. Kiko nos convidou a procurar um céu noturno mais limpo para observar as estrelas e Anelli falou sobre a pré-historia brasileira, praticamente ignorada nos livros, mas extremamente importante no cenário mundial. “Os primeiros animais apareceram em rochas brasileiras. Precisamos transformar nossa pré-história em um item da nossa cultura“, acredita.

O TEDxSP não falou só de professores, alunos, escolas e inovações em métodos educacionais. O bacana foi a amplitude do olhar sobre o conceito de Educação, como por exemplo, estimular a revisão do modelo de divisão de tarefas domésticas em nossas próprias casas. Uma divisão injusta sobrecarrega a mulher e ensina às crianças o sexismo e a desigualdade de gênero desde cedo.

O casal de escritores gaúchos Marcos Piangers e Ana Cardoso abordaram com bom humor essa questão. Eles defendem a ‘guarda compartilhada‘ dos filhos dentro do casamento. “Depois do nascimento das nossas filhas, minha esposa estava sempre cansada e reclamava muito. Eu não entendia, achava que eu estava fazendo a minha parte. O homem vai pro escritório para fugir da trabalheira de criar os filhos. Quem tá no escritório, na verdade, tá de folga. Se você tá dando menos do que deveria dar para a família, (em atenção e cuidado compartilhado) você está aquém do que deveria ser“, acredita Piangers. “Eu simplesmente não tinha energia para brincar com as meninas à noite, porque assumia a maior parte das tarefas no lar “, contou Ana Cardoso. “Não é o homem quem tem a vida profissional prejudicada quando vêm os filhos. As empresas ainda dizem que não contratam mulher que engravida. Filho não é descanso, a gente não tira férias quando vira mãe“. Ana ainda mandou um recado para todas as mães da platéia, alertando sobre a importância do cuidado compartilhado: “Parem de se culpar e aprendam a delegar para outras pessoas a educação dos filhos“.

Quem tá no escritório, na verdade, tá de folga. Se você tá dando menos do que deveria dar para a família (em atenção e cuidado compartilhado) você está aquém do que deveria ser” (Marcos Piangers, num recado aos homens)

Também não é possível pensar em uma sociedade mais humana se ainda excluímos pessoas pela cor da pele, classe social, identidade sexual ou situação financeira e se não nos permitirmos sermos mais vulneráveis no encontro com o outro. A atriz Tais Araujo, feminista e ativista do movimento negro no Brasil, falou sobre a necessidade de olhar as pessoas como seres humanos, que têm necessidades parecidas: todos querem ser aceitos, amados, acolhidos. “Quando me descobri grávida pela primeira vez, confesso que fiquei aliviada por engravidar de um menino“, contou Taís, justificando o alívio em função da sociedade brasileira ainda ser extremamente machista e violenta, especialmente ameaçadora para a mulher negra. “O feminicídio contra mulheres negras aumentou 54,8% no último ano“, informou. “Como criar crianças doces num país ainda tão ácido? Acredito que a saída é olhar o outro com afeto“, disse Taís.

Vários outros palestrantes mostraram exemplos de superação de limitações físicas, sócio econômicas, emocionais e raciais e se auto-educaram para poder extrair da vida o máximo de oportunidades aproveitadas. O rapper e romancista Ferréz, oriundo do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, contou sua história de descoberta e superação como escritor. Joyce Fernandes, a Preta Rara e a ativista feminista Stephanie Ribeiro usaram o rap e a poesia para expressar a dura condição da mulher negra. Stephanie arrancou lágrimas da plateia ao falar de forma tocante do pai ausente, realidade de mais de 5 milhões de crianças brasileiras, que não têm o nome do pai no registro de nascimento. O professor e pesquisador Rodrigo Hubner Mendes contou sua história e luta como paraplégico, pela educação inclusiva. Mendes sugere que as Paralimpíadas sejam incorporadas às Olimpíadas e que haja apenas uma tocha, uma celebração.

Como criar crianças doces num país ainda tão ácido? Acredito que a saída é olhar o outro com afeto” (Taís Araújo)

Em busca dessa doçura no tempero dos afetos, que aparentemente está perdida, mas é tão necessária, a jornalista e editora-chefe Ana Holanda, da Revista Vida Simples, promove a escrita afetuosa como caminho para o verdadeiro encontro com o outro. Ana acredita que a rotina, pontuada pelas histórias aparentemente mais banais, esconde verdadeiros tesouros. “A sua escrita é reflexo da sua alma“, disse ela. “As histórias mais poderosas vivem dentro da gente, mas temos medo de nos mostrar“. Falar sobre o cotidiano, contudo, não significa superficialidade. “A palavra tem que ser intensa, porque a vida é intensa“.

Outro ingrediente fundamental para que os relacionamentos possam trazer de volta o afeto na convivência social, é uma combinação de ética, fidelidade e transparência, valores hoje extremamente banalizados. O professor Clóvis de Barros Filho, uma das “estrelas” mais aguardadas do evento, afirmou que só poderemos ter uma convivência mais humana e saudável se conseguirmos estabelecer compromissos e abrir mão de ganhos e vantagens em prol do que foi prometido. “Fidelidade é a coerência entre a prática de agora e as promessas de ontem“, disse ele.

Repensar a Educação no Brasil, através desse novo olhar, exige de todos nós compromisso, afeto, intensidade, inclusão, diversidade, equanimidade, protagonismo, participação ativa e quebra de velhos modelos. Uma tarefa gigantesca, plural e ao mesmo tempo individual. Que pode começar agora, comigo e com você.

 

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