No mundo da educação, dois discursos coexistem e brigam entre si, mas para mim são igualmente verdadeiros. O primeiro: estamos criando nossos filhos com uma permissividade nociva, que vai se mostrar catastrófica no passar dos anos. O segundo: não podemos mais repetir o autoritarismo e a violência com que fomos tratados, porque isso vai gerar seres inseguros e despreparados para os desafios de um mundo em constante mutação.

Para a escritora, palestrante e educadora parental Elisama Santos, o único caminho para uma educação não violenta, que também ensine limites é o acolhimento das emoções, principalmente as nossas emoções. Elisama acredita que, quando não acolhemos o que sentimos, acabamos apelando para gritos, chantagens, ameaças, manipulações e por fim, violência física contra a criança, considerada crime no Brasil. Um tapinha na mão ou um aperto forte no braço, considerados medidas disciplinares legítimas há 20 ou 30 anos, hoje não cabem mais no repertório de uma educação respeitosa.

Elisama liderou o II Worshop de Educação Não Violenta, realizado na última semana, em São Paulo, na Casa de Viver e falou para pais e mães ávidos por uma nova orientação equilibrada em relação à disciplina, já que o modelo com que fomos educados não se sustenta mais.

Para resumir o conteúdo riquíssimo do Workshop, vou listar 10 das melhores dicas da Elisama para criar nossos filhos com limites firmes e gentis.

  1. Na hora da raiva, afaste-se!

Elisama explicou que nossos piores momentos podem ser grandes oportunidades de aceitar nossos limites. Segundo ela, a raiva ativa mecanismos cerebrais primitivos e ancestrais de luta ou fuga. Ficamos menos inteligentes, incapazes de diálogo. Na mente dos nossos filhos, acontece a mesma coisa, com o agravante de que eles ainda não entendem nem sabem gerenciar as próprias emoções, o que resulta em explosões de agressividade, choro incessante, insubordinação ostensiva ou a famosa ‘birra”. Cabe a nós ensinar a eles como gerenciar os sentimentos. Na hora da raiva, segundo ela, se sentimos que vamos perder o controle, o melhor é sair de perto, para que o ciclo da violência não se perpetue. Dessa maneira, ensinamos duas coisas valiosas aos filhos: Somos imperfeitos e, mesmo nos momentos mais estressantes, temos a capacidade de nos controlar. Em seu canal do Youtube, Elisama ensina que podemos ter em casa um “cantinho da calma” onde possamos nos refugiar nesses momentos tensos. Todos os membros da família podem montar seu cantinho, com objetos que tragam boas lembranças.

2. Acolha os sentimentos da criança

“A raiva é uma capa pra outros sentimentos reprimidos”, afirma Elisama. “Normalmente, por trás do ataque de raiva, tem algum sentimento que não foi acolhido anteriormente, como tristeza ou frustração”, ensina. É preciso entender e acolher as dores dos nossos filhos. A frustração de não conseguir montar um brinquedo pode parecer ridícula aos nossos olhos, mas para nossos filhos, pode ser uma dor real. Não ridicularize, não ignore, não minimize. “Não fomos educados para acolher nossas emoções, principalmente as emoções ditas “negativas”. Nossos pais não fizeram isso de propósito, eles simplesmente não sabiam como fazer isso, não aprenderam com os pais deles”, explicou ela. “O que mais ouvimos na infância foi: “Cala a boca”, “fica quieto”, “engole o choro”, “não foi nada”, enumerou, gerando identificação total da plateia. “Quem nunca ouviu: ‘se continuar chorando, aí é que vou  te dar motivo pra chorar’?”, perguntou, entre risadas dos participantes. “Agora, é nossa responsabilidade dar aos nossos filhos o que não recebemos, para que esse ciclo de violência não se perpetue”.

3. Seja coerente

“Que seu sim seja sim e seu não seja não”. A crise de permissividade, que muitos acreditam estarmos vivendo, vem, segundo Elisama, de limites mal colocados, de regras que mudam a todo momento, ao sabor das nossas próprias dificuldades emocionais. A criança fica insegura e reage muito mal a um ambiente onde as regras não são claras para ela. Um dia pode, no outro não pode. Isso mina a confiança na criança nos próprios pais e educadores. “Não precisamos ser rígidos e intransigentes, mas quando criamos uma regra, ela deve ser coerente, para que a criança entenda até onde pode ir”.

4. Sustente o limite

Muitas vezes a dificuldade não é só impor o limite, mas também sustentar a reação da criança. “Não podemos esperar que o filho agradeça quando impomos um limite, especialmente quando nunca fizemos isso antes”, pondera Elisama. “Claro que ele vai reagir com raiva, com choro, isso é normal”. Ela sugere acolher choro e a raiva, mas nunca ceder aos apelos desesperados dos pequenos. “Você pode continuar dizendo não, mas ao mesmo tempo esse ‘não’ pode também ser amoroso e gentil”. Nessa hora, segundo ela, não é preciso dar explicações detalhadas sobre a razão do impedimento. Basta ficar perto da criança, dizer a ela que entende sua frustração e oferecer um abraço, caso ela queira. Para fazer isso, é preciso ignorar o julgamento alheio. “Muita gente ainda acha que acolher o filho nessa hora da “birra” ou da “malcriação” é passar a mão na cabeça e perder a autoridade sobre a criança”, conta. “Não dá pra acolher o filho e ao mesmo tempo ficar preocupado com o que os outros vão pensar”.

5. No meio da crise, use a fantasia

Valide o querer da criança. Normalmente, dizemos que “Não foi nada”, ou “Isso não é importante”. Além de acolher e sustentar o limite, podemos usar a fantasia em relação à exigência da criança que não foi atendida. “Se ela quer tomar sorvete no inverno, podemos acolher a frustração dela por impedi-la de tomar e ao mesmo tempo brincar de imaginar qual sabor ela escolheria se pudesse tomar todo o sorvete do mundo”, exemplifica Elisama. Esse chamado para a fantasia normalmente desarma toda a raiva e o choro, segundo ela. “Funciona comigo na maioria das vezes”, garante.

6. Transforme ameaças em escolhas

Ultimatos e ameaças só pioram a situação na hora da raiva, de ambos os lados. “Se damos um ultimato e a criança não obedece, seremos obrigados a usar a força, com medo de perder a autoridade”, explica. “A criança precisa ter a sensação de que ela tem poder de escolha”, afirma Elisama. “Podemos dar opções e deixar que ela escolha a que parece melhor para ela no momento”. O que seria uma ameaça, numa tentativa desesperada de controlar um determinado comportamento, pode ser dito de outra forma e angariar uma cooperação imediata. Em vez de: “Se você não se comportar bem no mercado, vai ficar dentro do carrinho”, podemos dizer “O que você prefere? Ficar dentro do carrinho ou fora do carrinho, bem comportado, ajudando nas compras?”.

7. Pense a longo prazo: castigo ou consequência?

Toda forma de castigo ou punição é imediatista, não visa a melhoria do relacionamento, visa “consertar” uma situação. “Claro que, por medo, a criança pode até suspender o comportamento, mas a tendência é que a coisa retorne e retorne pior”, prevê Elisama. Em vez de castigos, podemos ensinar a eles a responsabilidade de lidar com as consequências de nosso comportamento e nossas escolhas. Uma forma de castigo: “Se não botar o casaco fica sem desenho quando voltar pra casa” pode se transformar numa forma de consequência: “Não quer botar o casaco? Tudo bem, vamos sair de camiseta”. Nesse meio tempo, levar um casaco na bolsa. A criança logo logo vai querer botar o casaco”, garante Elisama.

8. Abra mão do papel de juiz

Em briga de irmãos (ou de amigos), muitas vezes os pais ficam ansiosos para saber quem tem razão e quem foi prejudicado. Segundo Elisama, a chance de cometer injustiças é enorme quando nos candidatamos a juízes. “Sempre tem algo que você não viu, alguma informação, palavra ou atitude de um ou de outro que você não captou”, acredita ela. “O melhor é que você deixe que elas se entendam sozinhas, sem interferência de adultos”, acredita. “Se a coisa estiver mais séria, o melhor é separar as crianças por um tempo. Depois que estiverem separadas e mais calmas, deixe que se entendam”. Essa não interferência, segundo ela, é fundamental para que as crianças aprendam a negociar com seus pares e respeitar os limites alheios.

9. Evite os rótulos!

É muito comum, devido às nossas dificuldades com os filhos, que os rotulemos, às vezes de forma quase imperceptível. Mas para Elisama, os rótulos são muito perigosos: podem reforçar comportamentos negativos e aprisionar a criança num modo de ser que provavelmente não a define como ser humano. “Os rótulos limitam”, acredita. “O menino que é sempre “bonzinho”, pode não aprender a se defender e fazer de tudo para agradar, se distanciando de sua essência. O “inteligente” não pode errar ou arriscar a estar errado ou ter desempenho pior que os outros e pode ter medo de crescer. O “comilão” pode ter problemas com comida e imagem corporal na vida adulta”, exemplifica.

10. Acolha a si mesmo!

No caminho da Educação Não Violenta, existem muitos retrocessos, dificuldades e imprevistos. Tão importante quanto acolher a criança, é acolher a nós mesmos. “De vez em quando, vamos fazer o contrário do que nos propomos. O importante é abandonar a culpa e seguir em frente. A culpa paralisa, mas quando assumimos o erro, tendo compaixão conosco, encontramos saídas para fazer diferente”, acredita Elisama. “Temos que ter permanentemente um compromisso com o treino desses novos comportamentos, mais amorosos e gentis”.

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