Nas últimas férias, nadávamos eu e a filha, quando ouvimos um estalido forte, perto de nós, na beira da praia.

Era um peixe grande, se debatendo furiosamente na areia, tentando pegar carona nas ondas mansas, rasas e incertas. Por mais força que fizesse, não conseguia retornar pra água. Era de um tipo achatado, cinzento, bolinhas azuis espalhadas pelo corpo, olhos grandes, boca pequena e guelras arquejantes.

Eu não sabia se o resgatava ou se simplesmente assistia e esperava o desfecho da agonia.

O marido se aproximou e, em nome da salvação do peixe, implorei que ele o pegasse pelo rabo e mostrasse o caminho. E assim foi feito.

Segundos depois de ter sido arremessado de volta ao mar, percebemos que não se mexia. Parecia boiar, inerte, naquela água cristalina.

Não conformada, fui seguindo o peixe, que boiava mansamente, levado pela maré. Caminhamos um pouco no meio das águas, nos entreolhando, eu e marido, sem saber como comunicar o falecimento à filha, que repetia: “puxa, mas se ele morrer, vai ficar sem família”….

De repente, ao analisar minuciosamente o corpo, percebi que as guelras se mexiam e gritei, eufórica: “tá vivo!”… As nadadeiras,  transparentes como papel de arroz molhado, vibravam.

E o peixe, já reanimado e ainda obstinado, resolveu voltar para seu ponto de partida, no mesmo local onde foi encontrado. Incrédulos, o acompanhamos. A maré o jogou na areia, mas uma onda mais forte rapidamente o arrastou de volta pro mar, sem que precisássemos entrar em ação. Éramos intrusos bem intencionados, porém desastrados, naquela vida de peixe.

O marido ainda tentou pega-lo pelo rabo e repetir a operação de resgate, mas o peixe livrou-se, sob protestos, flutuou por entre as pedras e desapareceu, com suas pintas azuis, por entre marolas azuis.

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